Na ausência de tratamentos capazes de interromper ou reverter a progressão do Alzheimer, condição neurodegenerativa progressiva e irreversível, uma nova pesquisa traz uma perspectiva animadora para pacientes
e familiares: a possibilidade da melhora da qualidade de vida dos doentes. Um estudo apresentado neste mês na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer (AAIC) mostrou que a combinação de dois compostos da Cannabis — THC (tetrahidrocanabinol) e CBD (canabidiol)— reduziu de forma significativa a agitação comum a demência avançada, como o Alzheimer.
O sintoma está entre os mais difíceis da doença. Pode provocar ansiedade, agressividade, inquietação e sofrimento intenso, além de aumentar a necessidade de internações e do uso de medicamentos antipsicóticos. Ao aliviar esse quadro, a terapia tem potencial para proporcionar mais conforto e dignidade aos pacientes, além de reduzir a sobrecarga física e emocional de seus cuidadores.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Medicina do Sul da Carolina e da Universidade de Georgetown, financiado pelo Instituto Nacional de Saúde (sigla em inglês, NIH) e pela Associação de Alzheimer. O ensaio clínico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo — considerado o padrão-ouro para avaliar novos tratamentos — envolveu 120 pacientes com demência avançada, elegíveis para cuidados paliativos, com idade média de 80,5 anos e agitação clinicamente significativa.
Os participantes receberam uma formulação experimental denominada T2:C100, contendo 2 miligramas de THC e 100 miligramas de CBD. Após apenas duas semanas de tratamento, 84% dos pacientes tratados apresentaram melhora nas escalas padronizadas de avaliação da agitação, contra 31% no grupo placebo. Ao final das 12 semanas de acompanhamento, 87% dos participantes que receberam a combinação de canabinoides apresentavam melhora, enquanto apenas 24% dos pacientes do grupo placebo registraram evolução semelhante.
"Os resultados representam um avanço importante para uma população historicamente negligenciada em pesquisas clínicas", diz o psiquiatra Jacobo Mintzer, principal investigador do estudo. Segundo ele, é raro observar uma resposta positiva em quase 90% dos participantes de um ensaio envolvendo pacientes com demência. Os pesquisadores ressaltam que o tratamento não impede o avanço do Alzheimer nem recupera funções cognitivas perdidas. O benefício está no controle dos sintomas comportamentais. Se os resultados forem confirmados em estudos maiores e a terapia obtiver aprovação regulatória, a combinação de THC e CBD poderá representar uma nova alternativa para os pacientes.







