Ao relembrar a própria rotina escolar, lá atrás, na década de 1990, a arquiteta Letícia Araujo, 43 anos, volta a um tempo em que o professor se punha à frente da classe e escrevia com giz na lousa.
Os alunos
apenas ouviam e anotavam. “Nem passava pela nossa cabeça que pudesse ser diferente”, conta. Hoje, seus filhos Bernardo, 10, e Rafael, 15, estudam no mesmo colégio que ela, o Carolina Patrício, na Barra, mas o jeito de aprender já não é mais exatamente aquele.
+ Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui
“A participação das crianças agora é incentivada, e os momentos de explicação se alternam com atividades que buscam o engajamento”, diz. Apesar de os ventos da modernidade terem adentrado a sala de aula e arejado o ensino em certo grau, a autora de dois livros infantis lamenta que os rebentos, assim como tantos de sua geração, relutem em abraçar o hábito da leitura.
“Assistir a vídeos na internet e conversar com amigos pelo WhatsApp é o que mais gostam de fazer”, reconhece Letícia. Seu relato, semelhante ao de muitos outros pais, ajuda a dar contornos ao grande desafio da educação em meio à onipresença das telas — fisgar a atenção de uma geração ultraconectada e colocá-la na proveitosa trilha do saber.
Não é tarefa nada fácil, segundo reforça um estudo divulgado pela prestigiada Psychiatry Research. Após analisar uma amostra de 17 000 adolescentes, a conclusão é de que a turma que faz uso excessivo de celulares e laptops no tempo livre tem probabilidade 28% maior de apresentar dificuldades cognitivas e perder o foco na lição.
“A dopamina, estimulada pelas telas, é o neurotransmissor que fornece recompensa imediata. Assim, o aprendizado, que exige esforço, pode ser percebido como menos interessante”, explica o neurocientista Paulo Mattos, pesquisador do Instituto Díor (Idor).
Neste mundo chacoalhado pela tecnologia, ela pode ser muito bem-vinda ao colocar na palma da mão da garotada potentes aparatos de pesquisa on-line, com lugar de destaque para a inteligência artificial (IA), além de um vasto conteúdo, entre vídeos e podcasts.
Para fazer tamanho arsenal conspirar para valer em prol do bom ensino, porém, é preciso manter aceso o senso crítico, percebendo omissões, erros e o viés da máquina — uma habilidade que as escolas começaram a semear entre os estudantes ao formalmente introduzi-la na grade curricular.
“A tecnologia amplia as chances de aprendizado, mas é o pensamento crítico que permite utilizá-la com responsabilidade. E o professor funciona aí como um mediador, não mais apenas como um transmissor de conhecimento”, avalia João Pedro Basso Santos, professor de linguagem digital do Centro Educacional Espaço Integrado (CEI), na Barra, onde a nova disciplina voltada para IA integra o leque de matérias do ensino fundamental.
Durante a aula, a criançada aprende a identificar manipulações em imagens e a reconhecer fake news. “Não basta encontrar uma resposta, é preciso analisar a qualidade dela. A questão hoje não é proibir a adoção dessas ferramentas, mas ensinar o aluno a se beneficiar delas, com discernimento”, enfatiza Hélia Sanches, diretora-geral do Carolina Patrício, que também incorporou competências ligadas à cultura digital em seu projeto pedagógico.
A tecnologia é apenas parte de uma equação que tem como objetivo ajustar os caminhos do aprendizado à complexidade moderna. A ideia é substituir a decoreba de uma vastidão de conteúdos pela capacidade de conseguir juntar peças de informação hoje de tão fácil acesso, fazendo girar as engrenagens do cérebro.
“Formamos jovens para dominar a competência mais decisiva do mundo contemporâneo, que é aprender a aprender”, esclarece Bruno Amaral, diretor pedagógico do Alfacem Global Academy, cuja unidade da Barra alcançou em 2025 o 1º lugar no ranking do estado do Rio no Enem e o 9º na lista nacional.
Na disciplina global perspectives, os estudantes são instados a construir argumentos de múltiplas camadas, tudo em inglês, sobre temas que variam de sustentabilidade a política internacional. As apresentações vão do modo clássico, de pé, em frente às carteiras, à elaboração de um site.
Além disso, para sacudir a rotina e capturar a atenção da meninada desde cedo, algumas aulas são ao ar livre, sempre com propósito pedagógico. Mas reinventar a sala de aula também significa rever hábitos que passaram a dificultar o aprendizado.
Antes mesmo de uma legislação municipal entrar em vigor, em 2024, vetando a presença de celulares no ambiente escolar, a Eleva, com filiais na Barra, Urca e Botafogo, já o havia feito, de tão perturbadora que era a presença deles.
“Não foi um processo simples, houve resistência, mas, com a parceria das famílias, a escolha de materiais didáticos de boa qualidade e o empenho da equipe, superamos a fase de transição. Hoje, vemos que os alunos se engajam mais e melhor”, comemora Paulo Moraes, CEO da Inspired Education, que tem a Eleva no portfólio.
A busca da educação é conferir significado a um percurso que é sempre extenuante, muitas vezes enfadonho, quando não ajustado à acelerada era em que vivemos. “A partir do método de pesquisa científica, os alunos testam hipóteses e aplicam conceitos em situações concretas, e o abstrato passa a fazer sentido”, conta Rafael Bronz, coordenador pedagógico da Sá Pereira, em Botafogo.
A estratégia vem colhendo resultado: em 2025, os alunos conquistaram oito medalhas, incluindo o ouro nacional, na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas e Privadas (OBMEP), um evento importante para impulsionar cérebros curiosos, realizado pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa).
Essa lógica de aproximar teoria e prática também vem sendo empregada na rede pública. Recentemente, a prefeitura inaugurou, na Ilha do Governador, o 314º Ginásio Educacional Tecnológico (GET), modelo que valoriza a inovação. “A robótica está presente em toda a rede, o que favorece o raciocínio lógico e o trabalho em equipe”, diz o secretário Hugo Nepomuceno.
A experiência se replica em outras cidades fluminenses. Em Maricá, a combinação de audiovisual, músicas e jogos ajuda no ensino de mandarim no Campus de Educação Pública Transformadora (CEPT) Leonel Brizola, integrante do projeto de educação trilíngue, algo tão valorizado nos tempos atuais.
“Alguns adolescentes já têm certificações internacionais de proficiência no idioma”, orgulha-se Rodrigo Moura, à frente da pasta de educação em Maricá. O trabalho, porém, não termina quando a aula acaba. O aprendizado é um processo contínuo e, fora da escola, a ideia é que siga florescendo, ainda que seja tão duro duelar com a nova noção de tempo — tudo está a um clique, e a janela de atenção das jovens gerações logo se fecha.
“É necessário entender que a vida real não tem a mesma velocidade de um comando na tela. A espera vivida de forma saudável ajuda no amadurecimento afetivo e subjetivo”, ensina o psiquiatra Orli Carvalho, do Ambulatório de Adolescentes do Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz.
Uma batalha dos educadores gira em torno das noites maldormidas da turma, que atravessa os portões da escola para lá de sonolenta. “As conturbadas rotinas para dormir, frequentemente associadas ao uso excessivo de telas, fazem com que o tempo de repouso seja insuficiente”, afirma Pedro Rocha, diretor de ensino do Pensi, com 14000 estudantes na capital fluminense.
A ciência explica: uma das causas reside na luz dos dispositivos, que inibe a secreção de melatonina e torna mais difícil engatar no sono. “Os adolescentes diminuem o período de descanso voluntariamente para continuar on-line”, alerta Paulo Mattos, do Idor.
Não apenas crianças e adolescentes, mas também seus pais vivem ultraconectados. O abuso das telas se torna aí um obstáculo à conversa em família, interrompida por notificações desimportantes que acabam por encurtar momentos valiosos.
“O celular não é vilão, mas não pode impedir o relacionamento presencial”, frisa a educadora parental Priscilla Montes. Criadora de conteúdo no TikTok, Bianca Pimentel, 45 anos, observa o impacto da pandemia na diferente relação que as duas filhas mantêm com seus gadgets. “A mais velha, de 17 anos, precisou estudar em aplicativos e foi um caminho sem volta. Já a caçula, de 8, nunca usou o computador pedagogicamente e tem mais foco”, compara.
Os reflexos dessa profunda mudança são também sentidos no ensino superior. Há vinte anos professor de imunologia e dermatologia em duas universidades federais, o médico Omar Lupi reduziu o período de aula em 40%.
“Não dá para segurar os jovens além de 45 minutos. Também passei a usar mais imagens, vídeos e resumos”, relata. “Antes, os alunos chegavam mais preparados e eu era bombardeado de perguntas. Hoje, no máximo eles complementam algo que pesquisaram enquanto ensino”, constata Lupi.
Com o lançamento do ChatGPT no fim de 2022, a IA foi recebida com desconfiança pelo risco de estimular o deletério corte e cole. Dois anos mais tarde, a discussão deu uma guinada: em vez de proibir, escolas e professores procuram ensinar como usá-la de forma responsável e produtiva.“Precisamos organizar o uso com intencionalidade pedagógica, mediada pelo professor”, diz Andréa Marinho, consultora de educação da Firjan.
Na Escola Americana, com unidades na Gávea e na Barra, a mexida começou com a criação de regras de uso e capacitação dos docentes. “Nas feiras de ciências, cresceram os projetos que usam IA para resolver problemas reais. E um grupo de alunos criou o Mister Pi, aplicativo que ensina matemática pelo WhatsApp”, conta Carlos Eduardo Pinho, diretor de tecnologia, lembrando que “essa cultura pegou”.
Na disciplina DiaLab, no colégio Pensi, os alunos criam inclusive agentes de IA. “O objetivo é garantir a capacitação e o uso consciente da tecnologia, que não é apenas um meio para obter respostas rápidas”, destaca Pedro Rocha, do Pensi.
“Um professor jamais será substituído por uma ferramenta”, ressalta o diretor pedagógico do Alfacem Global Academy, Bruno Amaral, que dá voz a uma preocupação mais geral nos centros que difundem o ensino de qualidade.
Destaque nos rankings globais de educação, a Noruega, na contramão, restringiu o uso de IA para alunos de 6 a 13 anos desde o início do ano letivo de 2026. A decisão visa impedir que as crianças pulem etapas consideradas essenciais ao aprendizado, lendo e escrevendo menos do que o desejado.
A carioca e influenciadora Gisele Pointis (@giginoruega) mora há quase duas décadas perto de Oslo e nota ali a valorização da convivência tête-à-tête. “Meus filhos não têm celular, e nas escolas as regras são bem rígidas em relação a isso. Quando estou no Brasil, percebo que eles conseguem manter a atenção por mais tempo na comparação com outras crianças”, diz Gisele. Por aqui, as escolas estão, como nunca antes, às voltas com o fundamental debate sobre como adicionar a tecnologia à rotina sem que empobreça a caminhada, mas, ao contrário, a torne mais atraente e, ao fim, até divertida.
“A cultura digital constitui uma dimensão central da vida social. Seu papel é justamente formar sujeitos capazes de utilizá-la de forma autônoma e responsável”, acredita Leonardo Marino, professor do programa de pós-graduação em ensino em educação básica da Uerj.
Entre a lousa que marcou a geração dos pais e a inteligência artificial que acompanha os filhos, o desafio da sala de aula deixou de ser competir com a tecnologia, mas fazer dela uma poderosa aliada na fascinante trilha do saber.
Atenção vale ouro
A velocidade das redes vem modificando hábitos
95% dos adolescentes têm acesso a um smartphone
28% mais risco de os adolescentes que usam telas de forma recreativa em excesso terem dificuldades cognitivas, incluindo manter a atenção nas aulas
8 horas é o tempo médio que adolescentes passam diariamente diante de telas para lazer, sem contar atividades escolares
237 notificações pipocam, aproximadamente, no celular de um jovem ao longo de um dia
100 vezes por dia um adolescente costuma acessar seu smartphone
20 a 25 minutos é o tempo, em geral, que estudantes conseguem manter atenção contínua em sala de aula antes de ocorrer uma queda significativa do foco
Nada será como antes
Professores descrevem mudanças nas aulas em tempos de hiperconexão
“Em vez de enunciados genéricos e desinteressantes, utilizo IA para montar exercícios personalizados nas aulas, ajustados para o que pode despertar a curiosidade dos alunos, especialmente os que apresentam mais dificuldade. Em maio, o show da Shakira em Copacabana foi um gancho para apresentarmos problemas de matemática embalados de uma forma interessante”, explica Gabriela Furtado, professora de educação tecnológica da Escola Americana.
“É impossível reter a atenção da turma durante 1h40 de aula expositiva, então jogos de tabuleiro e até paródias musicais podem dar uma força no ensino da matemática. Números primos, conjuntos numéricos, Teorema de Tales, entre outros assuntos, podem ser ensinados com descontração. A turma reage de maneira bem positiva e memoriza o conteúdo de forma lúdica”, diz Antônio Nunes, do Ginásio Educacional Olímpico Isabel Salgado, na Barra, da rede municipal carioca.
“Utilizando ferramentas de IA, criei o The Aura Journey, inspirado na lógica dos jogos digitais. Os estudantes do ensino fundamental aprendem o conteúdo por meio de desafios, personagens e objetivos de aprendizagem construídos especialmente para aquela turma. A principal mudança foi perceber o aumento do interesse na aula. Quando o aluno está envolvido com a proposta, ele pratica e aprende mais”, detalha Maria Carolina Silva, professora de inglês do Colégio Qi da Barra Olímpica.
Termos recém-chegados ao dia a dia de quem ensina e aprende
CHATGPT Sistema de IA conversacional que responde perguntas, explica conteúdos, auxilia na escrita, gera ideias e apoia estudos e projetos quando usado de forma crítica e ética. Há softwares de outras empresas, como o da chinesa DeepSeek, do Gemini, do Google, e o Claude, da americana Anthropic.
IA Generativa Tecnologia capaz de criar novos conteúdos por meio do acesso ao acervo humano disponível on-line, a partir de comandos do usuário.
Aprendizagem Ativa Metodologia em que o aluno participa da construção do conhecimento por meio de investigações, desafios, discussões e resolução de problemas.
Sala de Aula Invertida Modelo no qual o primeiro contato com o conteúdo acontece em casa, assistindo a vídeos, ouvindo podcasts ou lendo algum material. O tempo em sala de aula é reservado para debates, atividades práticas e esclarecimento de dúvidas.
Gamificação Uso de elementos de jogos, como missões, desafios, pontuação e recompensas, a fim de aumentar o engajamento e a motivação.
Educação Socioemocional Desenvolvimento de habilidades como empatia, autoconhecimento, colaboração, comunicação, responsabilidade e controle das emoções, fundamentais para crianças e adolescentes.
Microlearning Aprendizagem em pequenas doses, com conteúdos curtos, focados num objetivo específico, facilitando a compreensão e a retenção do conhecimento.
Fontes: Juliana de Castro Faria Stitch e João Pedro Basso Santos, professores de linguagem digital do CEI
Fórum VEJA Rio Educação é uma realização da Editora Abril com patrocínio da Alfacem Global Academy, apoio da Prefeitura de Maricá e Senac e parceria do Hotel Fairmont.






