Filha adotiva de Raul Gazolla, 70, a atriz Milla Fernandez, 28, trabalhou por dois anos, durante a pandemia de Covid-19, como camgirl — modelo que faz exibições eróticas ao vivo pela webcam. A vivência
virou matéria-prima para o monólogo TIP – Antes que me queimem, eu mesma me atiro no fogo. Em conversa com a coluna GENTE, ela explica como a experiência em cena ressignificou a própria exposição.
Em alguns relatos, você diz que a experiência foi emocionalmente dura, apesar do retorno financeiro. Em que sentido?
Não foi exatamente o trabalho em si que foi duro. Para muita gente, pode ser uma profissão com benefícios. No meu caso, havia uma série de fatores. O principal: sou atriz, é a minha vocação desde os 14 anos. Ao expor minha imagem em um trabalho sexual existia o risco de afetar minha carreira. O mais difícil foi lidar com as possíveis consequências, especialmente a forma como eu seria vista pela sociedade.Em que momento você percebeu que precisava transformar isso em teatro? Desde o primeiro dia. Fiz uma live de 12 horas, na penumbra, repetindo frases ensaiadas na sala de casa. Cerca de 200 pessoas passaram pela transmissão e ganhei uns 40 reais. Naquele momento, pensei: “isso dá uma cena”. Foram dois anos, quase 500 “shows”, e vivi de tudo. Tenho a sorte de ser casada com um dos maiores diretores de teatro do Brasil, que me ajudou a transformar esse material em uma peça potente.
Houve experiência traumática? Já aconteceu de eu estar tão exausta durante uma live que não sabia se estava acordada ou dormindo. Ficava em dúvida se tinha dito algo inadequado — às vezes até em outra língua, porque fazia muitas transmissões em inglês. Os limites éticos são complexos: é preciso deixar clara a relação de compra e venda, mas também sustentar o imaginário do cliente. Na peça, conto um caso de um trabalho de quatro horas, em que um homem queria que eu repetisse, em espanhol, que estava grávida dele e teria seus filhos. No palco, a cena é engraçada. Na vida real, foi bem difícil.
Como sua família influenciou sua forma de encarar um caminho tão fora do padrão? Tenho muita sorte de ter uma família e um marido, que na época era meu namorado, que confiam em mim e no meu discernimento. Estão sempre dispostos a ajustar expectativas e apoiar minhas escolhas. Não comecei nesse trabalho para ajudá-los, nem por heroísmo. Foi para me sustentar. Eu tinha 21 anos, ainda dependia financeiramente deles, e queria autonomia para investir na minha carreira. Tudo o que pude retribuir, de alguma forma, eles já tinham me dado antes.












