Um dos pilares da alimentação saudável , para adultos, é a ingestão de ao menos cinco porções (cerca de 400 gramas) de frutas e vegetais por dia — de acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
Mas não é em todo lugar que o acesso a itens nutritivos é fácil, seja pela custo ou pela distância, o que dá origem aos desertos alimentares. Assunto este que pode marcar presença no vestibular e une saúde, desigualdade e urbanização.
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O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor define os desertos alimentares como "locais onde o acesso a alimentos in natura ou minimamente processados é escasso ou impossível, obrigando as pessoas a se locomoverem para outras regiões para obtê-los".
"Nessas áreas, geralmente predominam estabelecimentos que vendem ultraprocessados baratos, fast-food e produtos com baixa qualidade nutricional. O conceito surgiu nos Estados Unidos, mas hoje já é amplamente discutido no Brasil como um problema de saúde pública, desigualdade social e sustentabilidade", explica Luna Azevedo, nutricionista formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e especialista em dietas plant-based (a qual prioriza alimentos de origem vegetal e minimamente processados)
Contexto atual
Daniel Simões, professor de Geografia e Atualidades do Curso Pré-Vestibular e Colégio Oficina do Estudante, esclarece que a dificuldade de encontrar uma alimentação nutritiva espelha outros aspectos da desigualdade mundial e nacional dentro da teoria da interseccionalidade.
O conceito foi criado por Kimberlé Crenshaw, defensora dos direitos civis estadunidense, e trata do entendimento de que a interação ou sobreposição de fatores sociais (identidade de gênero, cor da pele, etnia, idade, orientação sexual, condição de pessoa com deficiência, classe social e localização geográfica) define a identidade de um indivíduo e a relação com a coletividade e o acesso aos direitos. Portanto, quem não está dentro das características de dominância seria alvo de opressões e disparidades.
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Para o professor, os grupos brasileiros mais afetados pelos desertos alimentares estão localizados no Norte e Nordeste do país. "A fome se dá muito mais por questões políticas e econômicas do que por falta de produção. Essa ocorrência no mundo está associada a conflitos que desagregam a produção local de alimentos, nas diferenças que fazem com que tenha um abismo entre o tipo de alimento que está acessível a um grupo em relação ao outro", afirma.
A nutricionista complementa: "Essas áreas costumam estar localizadas principalmente em periferias urbanas, comunidades vulneráveis, regiões afastadas dos grandes centros e municípios com baixa infraestrutura. O problema também aparece em outros países, como Estados Unidos, Reino Unido e algumas regiões da América Latina, especialmente em áreas periféricas e economicamente vulneráveis". O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor aponta que mulheres negras e com um maior número de filhos são o principal recorte que lida com a situação.
Nesse sentido, a maior dificuldade é obter alimentos na forma mais natural possível e escapar dos ultraprocessados. De novembro de 2020 a novembro de 2024, 62% das comidas e bebidas embaladas no Brasil eram altamente industrializadas. O dado é de um relatório desenvolvido pelo Ministério da Saúde, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Opas e o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (USP).
"Se no passado os produtos industrializados eram voltados aos ricos, hoje é o contrário. A população rica evita o ultraprocessado, consome mercadorias frescas e a população pobre que acaba tendo acesso a um alimento muito ruim em termos de balanço nutricional", explica Daniel Simões.
Luna demonstra que os impactos na população são profundos: a dificuldade de acesso a alimentos saudáveis está associada ao aumento da obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e insegurança alimentar. "Muitas pessoas convivem simultaneamente com excesso de peso e deficiência nutricional. Isso acontece porque os ultraprocessados costumam ser mais baratos, mais acessíveis e altamente calóricos, mas pobres em fibras, vitaminas e minerais", diz a profissional.
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Vale lembrar que existe outro conceito semelhante ao tratado neste texto. Os pântanos alimentares são áreas geográficas onde há uma abundância de estabelecimentos que oferecem, sobretudo, opções não saudáveis para a dieta. "São locais onde há excesso de oferta de alimentos ultraprocessados e industrializados, muitas vezes em quantidade muito maior do que alimentos naturais. Ou seja: em um deserto falta acesso; em um pântano existe um 'afogamento' em opções pouco nutritivas", declara Luna.
O que pode ser feito?
A nutricionista compreende que as políticas públicas têm papel fundamental nesse cenário. "Governos podem incentivar feiras locais, fortalecer programas de agricultura familiar, subsidiar alimentos saudáveis, melhorar o transporte urbano e ampliar programas de alimentação escolar. A população também pode ajudar valorizando produtores locais, reduzindo desperdícios e ampliando a educação alimentar dentro das comunidades."
Ela dá o exemplo do Programa Nacional de Alimentação Escolar, o PNAE, que "oferece alimentação escolar e ações de educação alimentar e nutricional a estudantes de todas as etapas da educação básica pública", de acordo com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.
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A Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional nas Cidades – Alimenta Cidades também é outra iniciativa que pode ser citada. O objetivo geral da ação é "ampliar a produção, o acesso, a disponibilidade, o consumo de alimentos saudáveis e adequados, priorizando os territórios periféricos urbanos e populações em situação de vulnerabilidade e risco social".
O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor define ainda outras possibilidades para reduzir a desigualdade nutricional:
- Estimular que pequenos estabelecimentos comercializem mais produtos in natura;
- Dedicar espaços públicos, como praças, para a criação de hortas comunitárias;
- Oferecer produtos in natura na alimentação escolar, em restaurantes populares e incentivar que o mesmo seja feito em refeitórios de empresas;
- Criar meios para que as feiras livres cheguem até os desertos alimentares;
- Regular o estabelecimento de restaurantes de fast food muito próximos uns aos outros, sobretudo em desertos alimentares.
Dicas para estudar
O professor Daniel afirma que a temática dos desertos alimentares pode aparecer nas provas deste ano. Ele indica que os vestibulares tradicionais e o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) já tiveram questões relacionadas à dificuldade de obter alimentos de forma permanente, fome e subnutrição, por exemplo.
"Já caiu abordando o assunto no Brasil, que a gente vinha num caminho muito positivo de redução da fome e a gente tem uma reversão disso lá no período da pandemia. E já teve em escala global, comparando, por exemplo, o fato de que em muitos países a insegurança alimentar está ligada a desperdício de alimentos nos países mais ricos, e nos países mais pobres o maior problema é o acesso. É um tema fortíssimo nas primeiras fases, embora não tenham cobrado exatamente o conceito dos desertos alimentares."
Ambos os especialistas dão a dica: é um tema muito rico para redações. "Você pode ter coletâneas mostrando os vários aspectos da fome, desde a contradição de modelo agrícola até os conceitos ligados à insegurança alimentar, de leve a grave", comenta o docente.
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Nesse caso, uma indicação de Daniel é o livro "Geografia da fome - O dilema brasileiro: pão ou aço", de Josué de Castro. A obra, publicada pela primeira vez em 1946, denuncia a falta de alimentos como um fenômeno social e coletivo presente em todos os continentes, com foco no Brasil. Além disso, o autor defende que é um fenômeno decorrente dos sistemas econômicos e sociais.
Acompanhar o noticiário e as pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também podem contribuir para a contextualização do problema, segundo Daniel.
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