Dr. Fabiano M. Serfaty: Em um mundo ideal, as unidades de saúde seriam santuários invioláveis de cura e acolhimento. No entanto, a realidade brasileira desenha um quadro alarmante onde o estetoscópio,
símbolo da aliança terapêutica, muitas vezes divide espaço com o medo e a insegurança. A relação médico-paciente, historicamente pautada na confiança mútua, enfrenta hoje o desafio de sobreviver a um sistema sobrecarregado e a uma sociedade em constante estado de alerta. No Brasil, os números são drásticos e revelam que a agressão seja ela verbal, psicológica ou física tornou-se um risco ocupacional cotidiano para aqueles que dedicam suas vidas ao cuidado alheio. Para aprofundar esse debate tão importante e urgente convidei o Dr. Antonio Braga, presidente do CREMERJ (Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro) , médico ginecologista e obstetra e uma das vozes mais atuantes na defesa da integridade médica. A segurança de quem cura não é um privilégio da categoria, mas a condição vital para que o socorro continue chegando a quem precisa. Quando o ambiente de saúde é tomado pelo medo, todo o sistema se fragiliza e a assistência entra em colapso. É preciso encarar a realidade com firmeza e clareza: sem segurança, não haverá médico e sem médico, não há saúde. Qual é o cenário atual da violência contra médicos no Brasil?
Dr. Antonio Braga: O cenário é grave e crescente. Estima-se que, no Brasil, um médico seja vítima de agressão a cada duas horas dentro de uma unidade de saúde — um dado que, por si só, já revela a dimensão do problema. No entanto, mais do que episódios isolados, estamos diante de um fenômeno estrutural, que reflete tensões sociais mais amplas e as fragilidades de um sistema de saúde frequentemente sobrecarregado e incapaz de responder, em tempo oportuno, às demandas da população.A unidade de saúde, que deveria ser um espaço de acolhimento, cuidado e confiança, tem se tornado, progressivamente, um ambiente de tensão e, em muitos casos, de conflito. Nesse contexto, o médico — por estar na linha de frente da assistência e representar, aos olhos do paciente, a face mais visível do sistema — acaba sendo indevidamente transformado no principal alvo dessa insatisfação.O resultado é um cenário preocupante, no qual a violência deixa de ser episódica e passa a integrar o cotidiano de trabalho, comprometendo não apenas a segurança dos profissionais, mas também a qualidade da assistência prestada e a própria sustentabilidade do cuidado em saúde.
Dr. Fabiano M. Serfaty: E no Estado do Rio de Janeiro, qual é a realidade?
Dr. Antonio Braga: No Estado do Rio de Janeiro, o cenário assume contornos ainda mais graves. Desde 2018 até o momento, quase mil médicos registraram queixas formais de violência sofrida no ambiente de trabalho junto ao CREMERJ. Para facilitar esse processo, mantemos em nosso site um canal específico de denúncia, que permite acolhimento rápido e atuação imediata: entramos em contato com o profissional e nos deslocamos à unidade de saúde para avaliar as condições de trabalho e de proteção oferecidas.Mas esses números, ainda que expressivos, representam apenas a ponta de um iceberg. A subnotificação é uma realidade — muitos profissionais, por medo, descrença ou naturalização da violência, deixam de formalizar a ocorrência. O mais preocupante é que não se trata de um problema estável: os registros vêm crescendo, acompanhando um ambiente social cada vez mais tensionado.Não podemos ignorar que essa violência institucional se insere em um contexto mais amplo de violência urbana. O Rio de Janeiro vive, em diversas regiões, uma rotina que se aproxima de um cenário de conflito permanente, com disputas territoriais, circulação de armas e insegurança cotidiana. As unidades de saúde, muitas vezes localizadas em áreas vulneráveis, não estão imunes a essa realidade — ao contrário, tornam-se espaços onde essas tensões se manifestam de forma direta. Profissionais trabalham sob risco, em territórios marcados por instabilidade, onde o medo já faz parte da rotina.Nesse contexto, o médico acaba duplamente exposto: à violência direta nas unidades e à insegurança estrutural do território onde atua. Somam-se a isso a sobrecarga assistencial e a pressão por respostas em um sistema que frequentemente falha, criando um ambiente de extrema vulnerabilidade.E, muitas vezes, esses profissionais se sentem pouco apoiados por seus gestores nessa luta desigual. Falta estrutura, falta proteção, falta resposta institucional à altura da gravidade do problema. Por isso, é fundamental afirmar: os médicos não estão sozinhos. O CREMERJ está ao lado deles acolhendo, atuando, cobrando providências e dando visibilidade a uma realidade que não pode mais ser ignorada.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Que tipos de agressão os médicos sofrem?
Dr. Antonio Braga: As formas de violência são múltiplas, progressivas e, muitas vezes, naturalizadas no cotidiano assistencial. Elas começam pela violência verbal — ofensas, xingamentos, ameaças diretas ou veladas — e avançam para intimidações, constrangimentos públicos, coação para realização de condutas médicas indevidas e desrespeito à autonomia profissional. Em muitos casos, há também assédio moral reiterado, exposição do médico a situações de humilhação e pressão psicológica contínua, o que compromete não apenas sua integridade emocional, mas também sua capacidade de tomada de decisão clínica.Em situações mais graves, a violência evolui para agressões físicas, com risco real à integridade do profissional, incluindo empurrões, tentativas de agressão e ataques consumados dentro das próprias unidades de saúde. Há ainda um componente silencioso, porém extremamente relevante: a sensação permanente de ameaça, que transforma o ambiente de trabalho em um espaço de vigilância e medo.Esse conjunto de violências tem impacto direto na assistência. Médicos sob pressão, inseguros ou acuados tendem a adotar condutas defensivas, reduzir sua exposição e, em alguns casos, se afastar de determinadas unidades ou regiões. Já há inúmeros postos de trabalho — especialmente em áreas conflagradas — em que profissionais se recusam a atuar pela absoluta ausência de condições mínimas de segurança. E essa decisão, longe de ser uma escolha individual, reflete uma falha estrutural.O resultado é perverso: populações inteiras ficam desassistidas, não por falta de médicos, mas por incapacidade do Estado de garantir condições seguras de trabalho. A violência contra o médico, portanto, não é apenas um problema individual — é um fator de desorganização do sistema de saúde e de aprofundamento das desigualdades no acesso ao cuidado.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Essa violência ocorre apenas no sistema público?
Dr. Antonio Braga: Não. Embora seja mais visível e frequentemente associada ao sistema público, a violência contra médicos também está presente de forma significativa na saúde suplementar. Estima-se que cerca de 30% dos casos ocorram em unidades privadas — um dado que desmonta a ideia de que esse fenômeno seria exclusivo de contextos de maior vulnerabilidade social.Na prática, o que se observa é que a violência atravessa todos os modelos assistenciais. No setor público, ela tende a ser intensificada pela sobrecarga estrutural, escassez de recursos e alta demanda reprimida. Já no setor privado, frequentemente está associada a expectativas elevadas, frustração com negativas de cobertura, limitações impostas por operadoras e conflitos relacionados à percepção de qualidade e acesso.Em ambos os cenários, o ponto em comum é a tensão gerada por um sistema que não consegue responder plenamente às demandas do paciente — e que acaba tendo no médico sua face mais visível. Assim, independentemente de ser em um hospital público, clínica privada ou unidade conveniada, o profissional permanece exposto.Esse dado é central porque reforça que não estamos diante de um problema localizado, mas de um fenômeno sistêmico, que exige respostas estruturais e coordenadas em toda a rede de saúde.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Existe alguma legislação para proteger os profissionais?
Dr. Antonio Braga: Sim. No Estado do Rio de Janeiro, há legislação que prevê a implementação do chamado “botão de pânico” nas unidades de saúde — um dispositivo de resposta rápida destinado a acionar apoio imediato em situações de risco. Trata-se de um avanço importante, pois reconhece formalmente a violência como um risco ocupacional e estabelece um mecanismo concreto de proteção.No entanto, a efetividade dessa medida depende diretamente de sua correta operacionalização. Não basta instalar o dispositivo: é necessário integrá-lo a protocolos claros, com fluxos bem definidos, equipes treinadas e articulação direta com as forças de segurança. O tempo de resposta é determinante em situações de violência, e isso exige coordenação entre gestores de saúde, direções das unidades e órgãos de segurança pública.Nesse contexto, é fundamental contar com a atuação célere da Polícia Militar no atendimento imediato às ocorrências e com a Polícia Civil na investigação e responsabilização dos agressores. A impunidade, quando presente, retroalimenta o ciclo de violência.Além disso, a legislação precisa ser acompanhada de outras medidas estruturais: controle de acesso às unidades, presença de segurança qualificada, monitoramento por câmeras e adoção de protocolos de prevenção e desescalonamento de conflitos. A proteção do profissional deve ser pensada de forma integrada, e não como uma ação isolada.O ponto central é claro: a existência da lei é um passo necessário, mas insuficiente. Sem implementação efetiva, sem fiscalização e sem compromisso institucional, ela se esvazia. Não podemos naturalizar a violência dentro das unidades de saúde. É preciso transformar a norma em prática — e dar uma resposta firme e coordenada a esse problema.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Por que a população, muitas vezes, direciona sua insatisfação ao médico?
Dr. Antonio Braga: Essa dinâmica precisa ser compreendida com responsabilidade e profundidade. Vivemos em um sistema de saúde frequentemente tensionado por sobrecarga assistencial, falhas de gestão e limitações estruturais que se acumulam ao longo do cuidado. Longas filas de espera, demora no atendimento, dificuldade de acesso a especialistas, escassez de medicamentos na atenção primária e obstáculos para realização de exames e cirurgias criam um ambiente de frustração contínua — muitas vezes associado ao agravamento das condições de saúde.Nesse contexto, o médico, por estar na linha de frente e representar a face mais visível do sistema, acaba sendo indevidamente transformado no destinatário imediato dessa insatisfação. É com ele que o paciente se encontra, é diante dele que a expectativa se confronta com a realidade — e é nesse ponto que a tensão se materializa. Trata-se de um deslocamento equivocado de responsabilidade: problemas estruturais e de gestão acabam sendo personalizados na figura do profissional.Há também um componente simbólico importante. A unidade de saúde é, muitas vezes, o único espaço institucional ao qual a população tem acesso direto e imediato. Diferentemente de instâncias administrativas ou de gestão, que são mais distantes, o médico está presente, disponível e acessível — o que o torna, injustamente, o alvo mais próximo.Isso não significa legitimar a violência — ao contrário, reforça a necessidade de enfrentá-la com ainda mais clareza. É fundamental afirmar que o médico não é o responsável pelas falhas do sistema. Ele também é, em muitos aspectos, vítima desse contexto: submetido a jornadas extenuantes, pressão assistencial, escassez de recursos e limitações que fogem à sua governabilidade.O resultado é um cenário em que tanto pacientes quanto profissionais são afetados por um sistema que não consegue responder plenamente às demandas. Adoece o médico, que trabalha sob tensão constante. Adoece o paciente, que não encontra a resposta de que necessita no tempo adequado. E, nesse ciclo, todos perdem.Romper essa lógica exige reconhecer as causas estruturais do problema, qualificar a comunicação dentro das unidades de saúde e, sobretudo, reestabelecer a compreensão de que a relação médico-paciente deve ser um espaço de confiança — e não de confronto.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Há um recorte de gênero nessa violência?
Dr. Antonio Braga: Sim, e ele é inequívoco. Uma parcela expressiva das vítimas de violência nas unidades de saúde é composta por mulheres médicas. Esse dado não pode ser analisado de forma isolada: ele reflete e reproduz a violência estrutural de gênero presente na sociedade brasileira. Dentro das unidades de saúde, essa violência muitas vezes assume contornos ainda mais complexos, combinando desrespeito à autoridade profissional, agressões verbais com conotação misógina, intimidação e, em alguns casos, violência física.É importante salientar que essas profissionais estão majoritariamente na linha de frente do cuidado — na emergência, na atenção primária, no contato direto e contínuo com pacientes e familiares em situações de fragilidade e tensão. Essa exposição aumenta sua vulnerabilidade, especialmente em ambientes já marcados por sobrecarga, escassez de recursos e falhas estruturais do sistema.Diante desse cenário, proteger as mulheres médicas não é apenas uma questão de segurança individual, mas um imperativo ético e institucional. Isso implica adotar medidas concretas de prevenção, fortalecer protocolos de segurança, garantir resposta rápida diante de situações de risco e promover uma cultura de tolerância zero à violência de gênero dentro dos serviços de saúde. Em um país que enfrenta níveis elevados de violência contra a mulher, não podemos naturalizar que essa realidade se reproduza justamente nos espaços dedicados ao cuidado.
Dr. Fabiano M. Serfaty: O que pode ser feito para enfrentar esse problema?
Dr. Antonio Braga: O enfrentamento da violência nas unidades de saúde exige uma abordagem estruturada, contínua e multissetorial. Não se trata de uma medida isolada, mas de uma agenda permanente que deve envolver gestores, profissionais de saúde, órgãos reguladores, forças de segurança e a própria sociedade.No plano institucional, é fundamental que as unidades de saúde adotem políticas claras de prevenção e resposta à violência. Isso inclui controle de acesso, presença de segurança treinada, monitoramento por câmeras, fluxos definidos para acionamento de apoio em situações críticas — como o uso efetivo de dispositivos de alerta — e integração com as forças de segurança pública. Protocolos não podem existir apenas no papel: precisam ser operacionais, conhecidos por toda a equipe e testados periodicamente.No plano assistencial, é indispensável capacitar os profissionais para o manejo de situações de tensão e conflito. Protocolos de desescalonamento devem ser incorporados à rotina, com treinamento específico em comunicação em cenários críticos, reconhecimento precoce de comportamento agressivo e estratégias para redução de risco. A equipe precisa saber como agir antes que a violência se instale — e também como proceder quando ela ocorre. No plano sistêmico, é impossível dissociar a violência das falhas estruturais do sistema de saúde. Reduzir tempos de espera, melhorar o acesso a exames e especialistas, garantir abastecimento adequado de insumos e dimensionamento correto das equipes são medidas que, indiretamente, também previnem a violência. Ambientes caóticos e sobrecarregados são terreno fértil para conflitos. Por fim, há um componente essencial que transcende o ambiente das unidades: a construção de uma cultura social de respeito. É necessário envolver a sociedade em campanhas educativas, estimular o uso de linguagem não violenta e reforçar que o profissional de saúde não é o responsável pelas limitações do sistema. A relação entre médico e paciente deve ser preservada como um espaço de confiança — e não de confronto.Enfrentar a violência exige firmeza institucional, organização dos serviços e maturidade social. É uma responsabilidade compartilhada, e não há solução simples para um problema que é, por natureza, complexo.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Qual o papel das normas profissionais nesse contexto?
Dr. Antonio Braga: As normas profissionais têm um papel decisivo porque transformam a segurança do ambiente de trabalho em uma obrigação formal, e não apenas em uma recomendação. A Resolução nº 2.444/2025 do Conselho Federal de Medicina representa um avanço importante nesse sentido ao estabelecer, de forma clara, responsabilidades para os diretores técnicos e clínicos das unidades de saúde.A resolução reforça que cabe aos responsáveis técnicos garantir condições adequadas para o exercício da medicina, o que inclui não apenas infraestrutura física e insumos, mas também a segurança dos profissionais. Isso implica organizar fluxos assistenciais que reduzam situações de conflito, estruturar mecanismos de prevenção e resposta à violência, assegurar canais formais de notificação de incidentes e adotar medidas que protejam a integridade física e psicológica das equipes.Outro ponto relevante é que a norma amplia a compreensão de responsabilidade institucional. A violência deixa de ser tratada como um evento isolado, imprevisível, e passa a ser reconhecida como um risco ocupacional que deve ser gerenciado. Nesse contexto, a ausência de protocolos, de treinamento ou de medidas de proteção pode configurar falha de gestão.Além disso, a resolução dialoga diretamente com o conceito de segurança patrimonial. Tradicionalmente associado à proteção de equipamentos e estruturas, esse conceito precisa ser ressignificado: o maior patrimônio de qualquer unidade de saúde são seus profissionais. Sem eles, não há assistência possível. Proteger quem cuida não é apenas uma questão ética — é uma exigência organizacional e legal.Portanto, mais do que orientar, a Resolução nº 2.444/2025 estabelece um novo padrão de responsabilidade. Ela sinaliza que garantir um ambiente seguro é parte indissociável da boa prática médica e da gestão adequada dos serviços de saúde. Trata-se de um guia para orientar para um novo pacto civilizatório que salvaguardará a relação médico-paciente nesses dias em que há tanta barbárie.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Como o CREMERJ se posiciona diante desse cenário?
Dr. Antonio Braga: O CREMERJ tem adotado uma postura ativa, estruturada e contínua no enfrentamento da violência contra médicos, compreendendo que a segurança no exercício profissional é condição indispensável para a qualidade da assistência. Como presidente da instituição, minha atuação está voltada não apenas à denúncia desse cenário, mas, sobretudo, à construção de mecanismos concretos de proteção e apoio aos médicos, mediante adequada sensibilização social para o tema.Um dos pilares dessa atuação é o acolhimento ao profissional vítima de violência. O CREMERJ disponibiliza, em sua página oficial, um canal específico para denúncia, permitindo que os casos sejam formalmente registrados. Sabemos que a subnotificação ainda é um problema relevante — e, por isso, incentivar e facilitar a denúncia é um passo essencial para dimensionar o problema e agir de forma efetiva.Além disso, após a devida apuração dos fatos, o Conselho pode promover o desagravo público ao médico, um instrumento institucional importante para reafirmar a dignidade da profissão e dar uma resposta clara à sociedade de que a violência contra o médico é inaceitável. Trata-se não apenas de um gesto simbólico, mas de um posicionamento ético e institucional firme em defesa do exercício profissional.O CREMERJ também atua diretamente junto aos responsáveis técnicos das unidades de saúde, cobrando providências concretas quando há registro de violência. Essa interlocução é fundamental para garantir que medidas corretivas sejam adotadas — seja no reforço da segurança, na reorganização de fluxos assistenciais ou na implementação de protocolos de prevenção e resposta a situações de risco. A responsabilidade pela segurança do ambiente de trabalho não pode ser negligenciada.Ao mesmo tempo, é importante reafirmar que, embora nossa atuação institucional esteja centrada na proteção dos médicos, esse problema atinge toda a equipe de saúde. Enfermeiros, técnicos de enfermagem e demais profissionais multiprofissionais compartilham da mesma realidade de insegurança e devem estar igualmente contemplados nas políticas de proteção.Por isso, o posicionamento do CREMERJ também é de ampliação do debate. É fundamental construir uma agenda integrada, que envolva diferentes conselhos profissionais, gestores públicos e privados, instituições de saúde e a sociedade civil. A proteção do ambiente assistencial deve ser pensada de forma sistêmica, com políticas de segurança que contemplem toda a equipe e não apenas categorias isoladas.Além da atuação institucional, o CREMERJ tem buscado estimular a notificação dos casos, apoiar os profissionais vítimas de violência e promover discussões que levem à implementação de medidas concretas de proteção nas unidades. Também temos defendido que a segurança seja tratada como prioridade na gestão em saúde, e não como um aspecto secundário ou reativo.Em última análise, trata-se de reafirmar um princípio essencial: não há cuidado possível em um ambiente de insegurança. Proteger quem está na linha de frente é proteger o próprio sistema de saúde. E isso exige compromisso coletivo, coordenação entre instituições e, sobretudo, vontade política para transformar essa realidade.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Qual é a mensagem final que você gostaria de deixar?
Dr. Antonio Braga: Devemos cuidar de quem cuida. O enfrentamento da violência nas unidades de saúde exige uma grande coalizão — envolvendo gestores, profissionais, instituições e a sociedade. Basta de agressões contra os médicos e todos os profissionais de saúde. O CREMERJ está nessa luta.Mas essa agenda precisa começar antes que a agressão aconteça. A prevenção deve ser eixo central das políticas de segurança em saúde. Isso significa investir em medidas concretas e estruturadas: monitoramento por câmeras, presença de segurança treinada, controle de acesso, ambientes com arquitetura defensiva que reduzam pontos de conflito e rotas de fuga adequadas, além de protocolos de emergência claros — incluindo dispositivos de pânico efetivos, conhecidos e testados por toda a equipe.Prevenir a violência é organizar o ambiente, qualificar a resposta e antecipar riscos. É transformar a segurança em parte integrante da gestão assistencial — e não em uma reação tardia ao problema.Essa é uma agenda de proteção institucional e de responsabilidade social. Estamos falando de garantir condições para que o cuidado aconteça. Proteger quem cura é assegurar o funcionamento do sistema de saúde. Sem segurança, não haverá médico. Sem médico, não há saúde.












