Pela primeira vez, a Copa será realizada em três países: Canadá, Estados Unidos e México. Num momento internacional turbulento, a Copa 2026 enfrenta outra situação inédita, bastante grave e preocupante:
um dos países anfitriões, os Estados Unidos, está em guerra com um dos países participantes, o Irã.
O conflito eclodiu em 28 de fevereiro passado, quando os EUA e Israel começaram a bombardear o território iraniano. O ataque ocorreu sem que houvesse ação prévia do Irã, o que configura uma agressão unilateral. Com o desenvolvimento do conflito, houve o bloqueio – por parte do Irã – do estreito de Ormuz, na saída marítima do Golfo Pérsico, por onde passam cerca de 20% do petróleo mundial (extraído dos países da região e exportados para o mundo todo), provocando um choque nos preços do petróleo, com impacto na economia mundial.
O motivo alegado para o ataque foi a determinação dos EUA e de Israel de impedir que o Irã continue enriquecendo urânio, com acusações de que possa avançar para uma bomba nuclear. O Irã, por sua vez, é aderente ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que permite o enriquecimento do urânio para fins pacíficos (até no máximo 20%, quando é preciso mais de 90% de enriquecimento para fabricar uma bomba).
+ Entenda o histórico do conflito entre EUA e Irã
Até o momento em que essa matéria era escrita, ainda não se sabia o que ocorreria com a seleção do Irã na Copa. Em 1º de junho, o país divulgou sua lista de convocação, mas afirmou que seguia aguardando a emissão de visto para a viagem da delegação. Antes, em março, o Irã propôs à Fifa (federação internacional do futebol) que seu grupo na Copa (com Bélgica, Egito e Nova Zelândia) fosse transferido do território norte-americano para o México. A Fifa recusou, pois a realização da competição é organizada com grande antecedência, incluindo a venda de ingressos e os pacotes de viagem para os torcedores. Ao mesmo tempo, reafirmou que os EUA garantem a segurança da seleção visitante.
Ocorre, porém, que, em abril, alguns membros da delegação do Irã foram barrados na migração do aeroporto de Vancouver, no Canadá, onde se realizou o Congresso da Fifa. O motivo foi a identificação deles com a Guarda Revolucionária do Irã, principal força armada do país – subordinada diretamente ao aiatolá Mojtaba Khamenei, chefe de Estado iraniano, que assumiu o posto após a morte do pai, Ali Khamenei, morto em bombardeio no primeiro dia da guerra. Em consequência, a delegação inteira abandonou o Congresso.
Em que condições a seleção iraniana poderá disputar uma competição de futebol em um país que está em guerra com o Irã?
É de se prever que muitos iranianos – sejam da delegação, sejam meros torcedores – possam ser barrados ao desembarcar nos EUA. E no estádio, como as torcidas se comportarão? Em 18 de maio, dois jovens norte-americanos invadiram uma mesquita em San Diego, na Califórnia (EUA), e mataram três pessoas a tiros, tendo morrido em seguida (ao que parece, por suicídio). Situações como essa podem se repetir? A persistência da guerra e a falta de clareza sobre as reais condições de participação da seleção iraniana trazem dúvidas e ameaças sobre o desenvolvimento esportivo da própria Copa.
Pela tabela da competição, Estados Unidos e Irã podem se encontrar já na primeira rodada do mata-mata, caso as duas seleções fiquem na segunda colocação de seus grupos: os EUA estão no grupo D, e o Irã, no G. Neste caso, o jogo aconteceria em Dallas, no Texas, em 3 de julho, véspera da data nacional dos EUA, o Dia da Independência (4/7/1776). Seria um jogo de alto risco de problemas dentro e fora do campo.
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