Por décadas, gerações de jovens se acostumaram a ver o surgimento da velhice dentro de casa, com o amadurecimento dos pais e avós. No cinema e na televisão, astros de uma vida inteira envelheceram diante
dos nossos olhos. Características biológicas absolutamente pertinentes à espécie humana, como a mudança da cor dos cabelos, da textura da pele e o aprofundamento de traços e vincos. Havia um olhar de admiração para quem passava por esse processo, ganhar idade era sinônimo de sabedoria, e experiência, digna de respeito.
Este comportamento, no entanto, parece estar mudando. Agora a Geração Z, nascida entre 2007 e 2012, tem outra relação com o fato de se envelhecer. Para eles, é como se ao atravessar uma determinada idade houvesse uma perda de visibilidade, uma ameaça de desvalorização, do direito de ocupar espaços e de ser ouvido. Como se ficar mais velho fosse um erro e não uma certeza.
A principal causa para esta nova tendência é o aparecimento e disseminação das redes sociais. Diversos estudos sobre comportamento têm apontado associação direta entre uso de redes como Instagram ou Tik Tok e distorções de imagem que podem levar a casos de dismorfia graves.
Quem hoje tem menos de 25 anos, atravessou a adolescência e o início da vida adulta sob a vigilância da ditadura visual, com contato frequente com filtros e imagens editadas, regulando a autoestima por número de curtidas, estimulada por algoritmos.
O resultado é a alta demanda por tratamentos de beleza – e não apenas entre os jovens. O mercado de skincare, cremes e procedimentos, aliados à alta tecnologia, não para de lançar novos produtos nas prateleiras. As vendas de beleza e cuidados pessoais no Brasil somaram R$ 173,1 bilhões no último ano, segundo os dados mais recentes da Euromonitor, agência de pesquisa de mercados globais. Além disso, um estudo publicado na Plastic and Reconstructive Surgery Global Open concluiu que as redes sociais influenciam a decisão de se submeter a procedimentos estéticos. Ou seja: os jovens estão travando uma guerra antecipada contra o tempo.
Importante ressaltar que essa discussão nada tem a ver com a insatisfação – humana e legítima – de se ver com um detalhe específico no corpo e querer consertá-la. Vaidade, na medida certa, também é uma demonstração de apreço por si mesmo. O ponto é quando se estabelece uma batalha perdida contra o tempo. Ano passado, o filme “A Substância” ilustrou à perfeição o perigo da busca incansável pela beleza eterna. É uma luta inglória porque é um fluxo contra a ordem natural da vida.
Marcas e sinais do tempo não são falhas físicas ou morais. Temos o privilégio de testemunhar a energia de mulheres como Maria Bethânia, Adélia Prado, Fernanda Montenegro e Zezé Motta, todas com mais de 80 anos. Saber envelhecer e aprender a gostar desse processo, identificar e compreender a riqueza desse caminho, pode ser tão estimulante quanto ser jovem.
Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp (CRM 5249669-2 e RQE 21502); professora da PUC-Rio e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.











