Sempre que a situação aperta em um país, as pessoas se põem a olhar para o mapa-múndi e a refletir sobre a possibilidade de fazer a vida em outro canto, onde o horizonte lhes pareça mais promissor. Precipitadas
por tais ventos, as ondas migratórias entre Brasil e Portugal, umbilicalmente conectados por história, língua e cultura, ora tomam a direção de lá para cá, ora de cá para lá. Nas últimas duas décadas, foram os brasileiros que maciçamente cruzaram o Atlântico, atraídos pelos salários em euro e a chance de criar filhos longe da violência que tanto atormenta moradores das metrópoles ao sul do Equador. E assim um contingente de meio milhão de detentores do passaporte verde-amarelo se estabeleceu na terrinha, mais do que qualquer outra nacionalidade, encontrando as portas abertas em uma economia puxada por um crescimento superior ao dos vizinhos de Europa. Mas a maré vem mudando ali com o recente endurecimento das regras de imigração, que passaram a vigorar em 19 de maio, complicando a situação até para quem já está legalizado em solo português e levando muita gente que planejava tentar a sorte no além-mar a repensar a rota.
O cerco aos estrangeiros, na verdade, já havia se estreitado antes em Portugal, em meio a um movimento anti-imigratório que ganha fôlego em todo o continente. Maiores aspirantes a fincar endereço em cidades como Lisboa, Porto e Braga (apelidada de Braguil, tamanha a comunidade que abriga), os brasileiros foram os mais atingidos — em 2025, 750 acabaram barrados já no aeroporto, segundo um relatório da União Europeia. O mau humor luso em relação aos que vêm de fora cresce com a escalada no preço dos imóveis, a qual se alia à queixa de que os serviços públicos não dão conta de tanta gente. Uma pesquisa do Instituto Nacional de Estatística (INE), o IBGE português, lança luz sobre o avanço da fatia de brasileiros que diz já ter sofrido algum tipo de discriminação do outro lado do oceano: 54%. “Eu era tratada como cidadã de terceira, quarta classe”, relata a assistente social Juliana Oliveira, 30 anos, que fez pós-graduação em gerontologia na Universidade de Lisboa e trabalhou em uma clínica para idosos onde os funcionários, segundo conta, tinham dificuldade de chamá-la de “doutora”. A tristeza se converteu em depressão e ela, que havia engatado um mestrado, resolveu regressar para São Paulo após quatro anos, dando fim ao sonho português.
O conjunto de normas que dificulta o processo de legalização de imigrantes é fruto de um cenário político no qual a extrema direita, representada pelo Chega, conquista terreno impulsionada justamente pela ferrenha defesa ao severo filtro contra forasteiros. Percebendo quão popular a pauta se tornou, o governo de Luís Montenegro, de centro-direita, resolveu se apropriar dela, e eis que daí surgiu a nova Lei da Nacionalidade, que torna mais complicada a obtenção da tão almejada estada no país de inverno menos inclemente entre os europeus e bons empregos para gente qualificada. A partir de agora, só poderão requisitar cidadania os que estão há pelo menos sete anos no país, ante os cinco anos de antes, e os filhos de estrangeiros nascidos ali passarão a ser considerados portugueses apenas depois dos 5 anos de idade, medidas que se somam a um caldeirão maior: desde 2024, não dá mais para carimbar o passaporte como turista e permanecer ali à espera de regularização, por exemplo.
O conjunto de obstáculos atinge em cheio uma turma que planejava se estabelecer de vez em Portugal, fazendo a família crescer naquelas bandas. Grávida de três meses, uma brasileira que prefere não revelar o nome por medo de entrar na mira das autoridades migratórias agora tem receio de que a filha cresça em um limbo jurídico, mesmo que ela e o marido, executivo de uma multinacional, sejam agraciados com uma permissão de trabalho destinada a pessoas de alta qualificação. “Ficaremos no máximo três anos. Prefiro não colocar minha filha em uma escola aqui, tantos são os relatos de maus-tratos contra crianças brasileiras”, justifica.
A xenofobia se faz mais cruel nesse estágio da vida, uma vez que a garotada dispõe de menos ferramentas para lidar com a intolerância. A história de um menino brasileiro de 9 anos que sofria bullying em uma escola de Viseu, na região do Rio Douro, reverberou pela comunidade brasuca pelo grau de violência que embute. Ao tentar sair de um banheiro no qual foi trancado, acabou perdendo dois dedos, prensados na porta. A mãe conta que já havia alertado as professoras da saga diária do menino. “Uma delas falou que foi só um acidente, brincadeira de criança”, lembra Nivia Estevam, 28 anos. Assustada, a família decidiu deixar tudo para trás. “Esse projeto acabou no dia que eu perdi a segurança de ser quem eu sou”, desabafa.
Os reflexos do gradativo endurecimento das regras de imigração são percebidos na piora da burocracia, que transforma um pedido de visto ou de permanência no país em uma cada vez mais intrincada epopeia. Resultado: milhares de brasileiros vivendo em uma zona de sombra, cercados de incertezas sobre o dia de amanhã. Enquanto os esperados carimbos não chegam, muita gente se vê subitamente na ilegalidade. Há quase uma década em Portugal, Amanda Silva Abreu, 27 anos, aguarda há mais de um ano a renovação de sua autorização para ficar por lá, onde trabalha no setor administrativo da Universidade de Lisboa. “Sem documentos, a pessoa entra na categoria de subtrabalhador, com salários menores e muita insegurança”, explica ela, que até criou um aplicativo para ajudar brasileiros em situação semelhante a percorrerem os labirintos de um processo que já foi bem mais simples.
Sob o ângulo econômico, recaem indagações essenciais sobre o avanço das políticas anti-imigração em países como Portugal, em que a população envelhecida se expande e indivíduos em fase produtiva são mais necessários do que nunca para fazer girar as engrenagens da sociedade. Da antiga colônia, vêm nada menos do que 7% da mão de obra portuguesa, contribuintes preciosos do sistema de seguridade social. Isso traz alívio aos cofres públicos, uma vez que ajuda a garantir a aposentadoria da vasta parcela local que já pendurou as chuteiras e cresce em maior velocidade do que a turma que ainda está em atividade. O aperto contra imigrantes, portanto, pode se converter em sério problema fiscal. Pois, enquanto a maré não anda boa para estrangeiros na terra de Camões, a vizinha Espanha, tocada por um governo socialista, decidiu lhes abrir as portas, o que logo despertou a atenção do pintor automotivo Alexandre Vilarim, 30 anos, que desembarcou em Portugal em 2024 como turista e regularizou sua permanência vivendo em Lisboa, um árduo processo envolto em grandes planos. Mas tudo mudou. “Avaliamos que a Espanha estava mais receptiva, oferece salários melhores, e fomos para lá”, diz.
A nova legislação não afeta, ao menos por ora, o grupo dos descendentes de portugueses que haviam requerido antes a cidadania nem quem tinha entrado com pedido de permanência, mas já é motivo de grande apreensão para uma turma que por tanto tempo cultivou a ideia de atravessar o Atlântico. O tema ganhou tamanha envergadura que foi discutido entre o primeiro-ministro Montenegro e o presidente Lula em viagem a Portugal, um mês atrás. Tentando baixar a fervura, o ocupante do Palácio de São Bento sugeriu que os casos seriam meros “ruídos” e “exagero da imprensa”. Ainda completou que o laço entre os dois povos era “impecável”, à exceção de um foco de perturbação aqui, outro ali. Pois, para tantos brasileiros que fincaram endereço em Portugal ou que estavam prestes a fazê-lo, a questão extrapola, e muito, os palanques. Pode ser o fim de um sonho, pá.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997










