Quantos jovens precisarão colapsar em academias, vestiários, hotéis de competição ou apartamentos até que se reconheça que existe um problema coletivo e progressivamente naturalizado?
Talvez uma das características
mais perigosas desse cenário seja justamente sua aparência de normalidade. Os corpos estão em toda parte: nas redes sociais, em feiras fitness, consultórios de luxo, cursinhos de fim de semana que vendem falsa expertise em anabolismo hormonal, pós-graduações suspeitas, congressos de falsos especialistas e na medicina baseada em faturamento.
O uso de esteroides anabolizantes, hormônio do crescimento, insulina, peptídeos experimentais, diuréticos, estimulantes e múltiplos protocolos sem respaldo científico deixou de ocupar posição periférica. Existe hoje um modelo econômico baseado na monetização do corpo. Corpos hipertróficos geram atenção, engajamento, vendas e lucro. Nesse ambiente, a farmacologia desaparece da narrativa justamente porque sua invisibilidade sustenta o valor comercial da fantasia. A pressão estética vira produto e a insuficiência corporal vira mercado.
O adolescente observa físicos biologicamente improváveis sendo apresentados como simples consequência de disciplina. Jovens médicos e estudantes de medicina presenciam colegas e influenciadores transformando testosterona, “modulação hormonal” e protocolos suprafisiológicos em linguagem cotidiana e possibilidade de sucesso financeiro. A testosterona vira ferramenta de disposição, definição corporal, libido e “performance metabólica”. A fisiologia humana passa a ser tratada como algo permanentemente insuficiente e continuamente “otimizável”.
Enquanto isso, as complicações seguem se instalando. Algumas agudas e fatais. Outras silenciosas, cobrando um preço anos depois.
No caso da insulina, o cenário é ainda mais delicado. Trata-se de um hormônio vital, mas sem segurança para quem não tem diabetes. Pequenos erros de dose, timing alimentar ou interação farmacológica podem desencadear hipoglicemia grave, convulsões, arritmias, coma e morte. Quando associada a doses cavalares de esteroides anabolizantes, restrição alimentar, "canetas" antiobesidade e diabetes, estimulantes, diuréticos e treinamento exaustivo, cria-se um ambiente biologicamente instável e fatal.
E, ainda assim, a cultura contemporânea interpreta esses desfechos como fatalidades isoladas. Não são.
A pergunta talvez não seja mais se existe um problema. A pergunta é por que continuamos sem reação diante dele.
Parte da resposta está no fato de que um ecossistema inteiro lucra com a manutenção da ambiguidade. Influenciadores e “atletas” monetizam corpos extremos. Clínicas transformam ansiedade e pressão estética em recorrência financeira. Cursos simplificam endocrinologia em protocolos rasos. Farmácias manipulam substâncias controversas em escala industrial. Plataformas digitais impulsionam vendas.
Mas reduzir o debate apenas à crítica também seria insuficiente. É necessário discutir soluções concretas.
Existe uma alternativa talvez menos compatível com os algoritmos da estética extrema, mas muito mais alinhada à fisiologia humana: o fisiculturismo natural. O treinamento natural não elimina todos os riscos do esporte, mas reduz drasticamente a exposição à polifarmácia e às complicações do uso suprafisiológico de hormônios. Talvez represente justamente a recuperação de um conceito simples: evolução física sustentável ainda depende principalmente de treino, nutrição, recuperação e tempo.
Precisamos recuperar a centralidade da medicina baseada em evidência no debate hormonal. Hormônios não podem ser tratados como ferramentas recreativas de performance estética.
Publicidade indireta de hormônios, promoção estética de protocolos suprafisiológicos e venda disfarçada de “otimização hormonal” precisam ser enfrentadas com maior rigor técnico, ético e regulatório.
É fundamental fortalecer a educação médica ética e formal. A banalização da endocrinologia em cursos rápidos cria um ambiente perigoso, especialmente quando jovens profissionais passam a aprender farmacologia hormonal com pessoas sem formação científica estruturada e guiadas apenas pela monetização.
Também é indispensável ampliar estratégias de educação pública para adolescentes e jovens adultos. O debate precisa abandonar o moralismo simplista e incorporar linguagem científica clara e contemporânea. O adolescente atual não está sendo influenciado apenas por ambientes clandestinos. Está sendo influenciado por algoritmos, influenciadores, médicos e discursos aparentemente legitimados.
Além disso, precisamos avançar em farmacovigilância e vigilância epidemiológica reais. O número de eventos adversos relacionados ao uso estético de hormônios provavelmente permanece subnotificado. Sem dados consistentes, a dimensão do problema segue invisível para parte das autoridades e da sociedade.
Também é necessário recuperar um conceito básico que parece progressivamente perdido: aparência física não é sinônimo de saúde metabólica ou cardiovascular.
Vivemos uma era em que corpos farmacologicamente amplificados passaram a representar sucesso, disciplina e superioridade biológica. E quando uma sociedade transforma fenótipos extremos em padrão aspiracional coletivo, o problema deixa de ser apenas endocrinológico - passa a ser de saúde pública, regulatório e legal.
Clayton Macedo é coordenador do Núcleo de Endocrinologia do Exercício da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)











