O cranberry parece ter entrado para a lista das frutas da vez. Basta entrar em uma farmácia para encontrar uma série de suplementos à base da fruta prometendo benefícios variados, especialmente para a saúde
urinária. Agora, um novo estudo publicado na revista científica Applied and Environmental Microbiology dá ainda mais fôlego a essa fama. Pesquisadores identificaram que o suco natural dessa pequena fruta, nativa da América do Norte, pode potencializar a ação de um antibiótico usado contra infecção urinária e dificultar o surgimento de bactérias resistentes ao tratamento.
A pesquisa foi conduzida por cientistas do Canadá, ligados ao Institut National de la Recherche Scientifique (INRS) e à Universidade McGill, e focou na Escherichia coli uropatogênica (UPEC), principal bactéria responsável pelas infecções urinárias.
Os autores lembram que a resistência aos antibióticos é hoje uma das principais preocupações da saúde pública. Isso porque, com o uso frequente desses medicamentos, algumas bactérias acabam aprendendo a “driblar” seus efeitos, tornando os tratamentos menos eficazes ao longo do tempo. A proposta do estudo foi justamente investigar se o cranberry poderia funcionar como uma espécie de “empurrãozinho” para que esses medicamentos funcionem melhor.
Para isso, os cientistas reuniram 32 versões diferentes da bactéria E. coli retiradas de pacientes com infecção urinária. Em laboratório, elas foram colocadas em contato com a fosfomicina — antibiótico bastante usado nesses casos — em dois cenários: um com adição de suco puro de cranberry e outro sem a fruta.
Antes de focar na fosfomicina, os pesquisadores também avaliaram se o cranberry poderia aumentar a eficácia de outros antibióticos usados contra infecção urinária, como ciprofloxacino, nitrofurantoína e ceftriaxona. Mas foi com a fosfomicina que o efeito apareceu de forma mais consistente.
O que os pesquisadores encontraram
Nos testes, o cranberry aumentou a ação da fosfomicina em 25 das 32 amostras analisadas. Ou seja, cerca de 78%.
Além disso, as placas com cranberry praticamente deixaram de apresentar pequenas colônias de bactérias resistentes, que normalmente conseguem sobreviver mesmo diante do antibiótico.
Em alguns experimentos, o surgimento espontâneo dessas bactérias resistentes caiu mais de 100 mil vezes na presença do suco.
Os pesquisadores também observaram um resultado particularmente interessante: uma bactéria específica, capaz de sobreviver a doses muito elevadas de fosfomicina, voltou a se tornar sensível ao antibiótico quando exposta à bebida feita com a fruta.
O que explica?
Para entender por que isso acontecia, os cientistas analisaram geneticamente as bactérias que sobreviveram aos testes. E a explicação parece envolver a maneira como a fosfomicina consegue entrar nesses microrganismos.
Para agir, o antibiótico precisa atravessar a “parede” da bactéria usando pequenas estruturas que funcionam como portas de entrada. Normalmente, a principal via usada pela fosfomicina é um transportador chamado GlpT. Muitas bactérias resistentes conseguem bloquear justamente essa porta, impedindo que o medicamento entre e faça efeito.
O estudo mostrou que o cranberry praticamente “desliga” esse sistema e faz a bactéria usar uma segunda porta de entrada, chamada UhpT.
Na prática, isso faz com que a fosfomicina continue conseguindo penetrar na bactéria e agir contra ela, mesmo quando surgem mecanismos de resistência.
Segundo os autores, esse redirecionamento ajuda tanto a aumentar a sensibilidade das bactérias ao antibiótico quanto a dificultar o aparecimento de novos microrganismos resistentes.
Os pesquisadores destacam, porém, que o suco de cranberry sozinho não demonstrou efeito antibacteriano. Ou seja: a fruta não substitui antibióticos nem deve ser encarada como tratamento isolado para infecção urinária.
Lacunas
Embora os resultados sejam interessantes, ainda é cedo para transformar o cranberry em um “reforço oficial” dos antibióticos. O primeiro ponto, segundo o urologista Carlo Passerotti, coordenador do Centro Especializado em Urologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é que o estudo foi feito em laboratório, a partir de amostras de urina, e não acompanhando os efeitos do tratamento diretamente nos pacientes.
“Com isso, não dá para afirmar, ao menos por enquanto, que tomar suco de cranberry junto com a fosfomicina melhora a cura da infecção urinária em pacientes”, diz o médico.
Ele ressalta ainda que, até aqui, as evidências científicas envolvendo cranberry apontam um papel mais consistente da fruta na prevenção e não no tratamento das infecções urinárias.
Ele cita uma revisão da Cochrane – rede global, independente e sem fins lucrativos que promove a medicina baseada em evidências - publicada em 2023, que reuniu 50 estudos e quase 9 mil participantes. Segundo a análise, o cranberry reduziu em cerca de 30% o risco de infecções urinárias recorrentes em alguns grupos, especialmente mulheres que sofrem repetidamente com o problema.
O especialista também chama atenção para a explosão de suplementos à base da fruta. Segundo ele, nem todos os produtos disponíveis no mercado possuem a mesma composição ou concentração dos compostos considerados mais promissores.
“Muitos produtos dizem conter cranberry, mas nem sempre deixam claro qual é a quantidade dos compostos que parecem estar ligados aos possíveis benefícios da fruta”, afirma. Segundo ele, algumas pesquisas sugerem que suplementos com pelo menos 36 miligramas diários dessas substâncias — chamadas proantocianidinas — podem apresentar resultados mais consistentes. “O problema é que existe uma grande variação entre as fórmulas vendidas no mercado”, observa.
Além disso, ele alerta que o consumo frequente do cranberry pode exigir cautela. “O suco de cranberry comercial muitas vezes contém açúcar ou é misturado com outros sucos para reduzir a acidez. Isso pode ser um problema para pacientes com diabetes, resistência insulínica, obesidade ou gordura no fígado”, explica.
Por fim, o médico reforça que a fruta não deve atrasar a procura por atendimento médico quando há sinais de uma infecção mais séria. “O cranberry pode ser um aliado preventivo, mas não substitui diagnóstico, urocultura quando indicada, nem antibiótico”, afirma. “Diante de sintomas como febre, dor lombar, calafrios ou queda do estado geral, é importante procurar atendimento médico.”











