Mais uma vez estou aqui, do outro lado do mundo, e não poderia deixar de usar esse tema para a coluna da semana. Muralha da China: essa icônica e misteriosa construção, arquitetada com diversos objetivos,
desde a teórica proteção a invasões de outros povos a uma China que quase não tinha mais guerras, bem como afastar de Pequim grande parte do exército e, com isso, evitar revoluções contra o imperador.
Sua construção ceifou mais vidas do que propriamente as batalhas enfrentadas ao longo dos séculos de sua estruturação. Mas hoje vamos falar de uma muralha que não precisou de milhares de anos para ser construída e em pouco tempo já é a mais sólida do mundo: o protagonismo da China na saúde mundial.
Não faz tanto tempo, na década de 70, a China tinha os chamados “médicos descalços”, de vestimenta simples que eram convocados para levar aos vilarejos mais distantes, não uma medicina moderna, mas orientação, educação prevenção e cuidado a quem tinha pouco ou nenhum conhecimento sobre doenças. Como toda construção, precisava de bons alicerces e a prevenção das doenças protegeria desabamentos futuros em sua estrutura.
Da mesma forma, havia a necessidade de investir em Universidades de alta qualidade, tanto na área da saúde, quanto de Engenharia, um dos pilares dessa revolução, pois tudo depende de engenheiros: desde os equipamentos, medicamentos, insumos, distribuição a estruturas hospitalares e armazenamento.
As colunas da muralha estavam formadas. Começaram a colocar os tijolos. O desenvolvimento tecnológico próprio, associado a pesquisadores altamente qualificados fez com que fosse criada uma diversidade de polos de pesquisas, bem como fábricas de equipamentos médicos e para a indústria farmacológica, que começaram de forma simples e com pouca qualidade até evoluírem como referência mundial.
O governo apoiava e monitorava a qualidade dessa construção e sua farmacovigilância e tomava medidas para avançar. Em 2017, referenciou seus laboratórios como padrão mundial de boas práticas, condição aceita por diversos paísestradicionais. Em 2024, a China passou o até então líder Estados Unidos, como o maior descobridor de novas moléculas e, em 2026, como o país de maior número de publicações médicas do mundo. Mas assim como a milenar muralha, nada disso aconteceu sem muito esforço.
O sistema educacional chinês é considerado um dos mais rigorosos. Hoje, a proporção de profissionais altamente qualificados, com doutorado, nas fábricas e hospitais é a maior do mundo. A necessidade de qualificações e certificações nacionais e internacionais leva os profissionais chineses ao esgotamento no estudar, trabalhar e fiscalizar. Não há mortes como na milenar construção, mas há uma competição rigorosa por empregos, posições e mercado.
Pesquisas e trabalhos científicos muitas vezes são alardeados somente com o nome do autor principal e esquece-se daqueles em letras pequenas que compõem o trabalho árduo das dosagens, notificações de resultados, observações e às vezes até a ideia inicial da pesquisa, ou seja, a mão de obra dos laboratórios.
Por muitos anos, o mundo “usou” chineses altamente qualificados, principalmente em universidades americanas e europeias. Hoje, eles não precisam sair da mãe China. Estão protegidos por grandes universidades que os mantém em um território seguro e próspero e os conhecimentos adquiridos podem ser usados ali mesmo, nas torres de fábricas modernas que existem ao longo de toda a muralha.











