Dr. Fabiano M. Serfaty: Há histórias que inspiram. Outras desconcertam e obrigam o leitor a rever o que entende por limite, potência e protagonismo. Algumas vão além fazem as duas coisas ao mesmo tempo,
mas sem apelo fácil, sem concessões, sem pedir licença. São trajetórias que tensionam, provocam e, no fim, ampliam o nosso campo de visão.Num país em que a inclusão ainda é frequentemente tratada como retórica e não como prática, ouvir quem vive essa realidade na pele deixa de ser uma necessidade. Não se trata de dar voz, mas de reconhecer quem já fala com clareza e impacto, e de entender que há narrativas que não existem para inspirar, mas para reorganizar a forma como enxergamos o outro e a nós mesmos. Foi com esse espírito que convidei Thais Pessanha para esta entrevista, em um momento especial de sua trajetória.Ela acaba de lançar o livro Dias de Sol, que aprofunda ainda mais sua reflexão sobre corpo, identidade, pertencimento e autonomia. Escritora premiada, curadora literária, professora, palestrante e ativista, Thais construiu um caminho que ultrapassa a ideia simplista de superação. Nascida em Macaé e vivendo com Osteogênese Imperfeita, uma condição genética rara que já resultou em mais de 300 fraturas ao longo da vida, ela transformou uma experiência marcada por limitações físicas em um projeto consistente de expansão de ideias, espaços e possibilidades.Autora de Sobre Rodas - Um Espírito em Movimento,reconhecido com o Prêmio Literário Clarice Lispector, e idealizadora do Clube de Leitura Ossos de Pássaro, finalista do Prêmio Jabuti 2025, ela não apenas ocupa espaços, ela os redefine. Você vive uma condição que impõe limites físicos reais, mas sua trajetória é marcada por expansão. Em que momento você entendeu que autonomia não é ausência de limitação, mas construção ativa apesar dela?
Thais Pessanha: Não teve um momento em específico. Eu fui criada entendendo que existiriam muitos cuidados a serem tomados, mas que essas restrições não seriam limitadoras na minha vida, apenas fariam com que, às vezes, eu precisasse construir meus próprios caminhos alternativos, um pouco mais lentos ou maiores do que os das demais pessoas. No entanto, ainda assim, chegaria ao destino desejado como todo mundo.
Dr. Fabiano M. Serfaty: O seu novo livro Dias de Sol nasce de qual necessidade interna inquietação, denúncia ou elaboração?
Thais Pessanha: Nasce da necessidade de sacudir um pouco a sociedade em prol de uma transformação real. De um chamamento público para que as pessoas entendam que a inclusão acontece no cotidiano e depende de cada um e cada uma de nós.
Dr. Fabiano M. Serfaty: A literatura ainda retrata a pessoa com deficiência de forma estereotipada, muitas vezes como herói ou vítima. O que mais te incomoda nessas narrativas prontas?
Thais Pessanha: Me incomoda o fato de nos colocarem em lugares ou posições a partir de pressuposições sociais e sem nos questionar se de fato somos isso ou queremos estar nessa posição, tirando toda a autonomia da pessoa com deficiência quanto ao destino da sua própria vida. E isso hoje tem nome: capacitismo.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Você transita entre a produção intelectual e o corpo em movimento, seja no skate ou no caiaque. O quanto ocupar fisicamente o espaço também é um ato político?
Thais Pessanha: É totalmente um ato político de demonstrar, como bem canta Gilberto Gil, que “Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço”. É lutarmos não apenas por maior representatividade de pessoas com deficiência em todo e qualquer espaço social que ela quiser estar, mas lutar por representação, por ter voz, escuta e poder de influência.
Dr. Fabiano M. Serfaty: O que a sociedade ainda se recusa a enxergar no debate coletivo sobre a inclusão?
Thais Pessanha: Creio que se recusa a enxergar tanto que as pessoas com deficiência são capazes de ser e fazer aquilo que ela quiser, como trabalhar, estudar, casar, votar e ser votada, ter filhos, viajar, ser esportista etc.; como também se recusa a enxergar o quanto faz parte e é responsável pela inclusão, não sendo responsabilidade apenas dos governos.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Seu trabalho com o Clube de Leitura Ossos de Pássaro propõe escuta e reflexão. Qual foi o momento em que você percebeu que estava mudando não só leitores, mas mentalidades?
Thais Pessanha:Quando vi pessoas registrarem, de forma espontânea e sem qualquer provocação, o quanto aquele debate a faz repensar uma determinada realidade, olhar por uma ótica até então não pensada. Isso quer dizer que cumprimos a nossa missão de provocar um debate social e uma reflexão.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Em ambientes acadêmicos e culturais, inclusão muitas vezes vira discurso sofisticado, mas pouco prático. Onde está a maior hipocrisia hoje?
Thais Pessanha: Infelizmente é difícil elencar um único espaço. Hoje, felizmente, com o destaque que a pauta de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) ganhou e os avanços legais no que tange à pessoa com deficiência que aconteceu nos últimos anos, as pessoas sabem que nem tudo é mais permitido, que não se trata de uma piada ou força de expressão. Isso hoje tem nome: é capacitismo e bullying, e são passíveis de sanções penais inclusive. No entanto, sabemos que no fundo a mentalidade daquela pessoa ainda não mudou.Ela pode até não verbalizar, mas ainda não abre espaço e não dá voz à uma pessoa com deficiência. O capacitismo também é estrutural em nossa sociedade.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Se você pudesse redesenhar a forma como o Brasil pensa acessibilidade hoje, qual seria a primeira mudança concreta na prática?
Thais Pessanha: Torná-la prática. Sairmos da teoria e irmos para a prática, lembrando que acessibilidade não é apenas rampas e barras em banheiro. É isso também, não apenas. A acessibilidade arquitetônica é uma das dimensões da acessibilidade como bem definiu Romeu Sassaki, mas não a única. Precisamos ampliar o debate considerando as demais dimensões da acessibilidade para que de fato tenhamos um mundo mais inclusivo para todas as pessoas. Dias de Sol vem justamente trazer muitas provocações quanto a todas essas dimensões, com destaque para a acessibilidade atitudinal.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Você atua em múltiplos campos: literatura, academia, ativismo e esporte. O que conecta tudo isso? Existe um fio condutor ou são formas diferentes de dizer a mesma coisa?
Thais Pessanha: Pra mim a base para que consigamos fazer uma transformação social efetiva é a educação e existem muitas formas de trabalharmos a educação, seja através de uma atuação tradicional na base (como na academia), mas também através do esporte, da literatura e do mercado de trabalho formal. São diferentes meio mas com a mesma finalidade, múltiplos caminhos nessa jornada.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Como você enxerga o papel da literatura na construção de novas narrativas sobre deficiência? Ainda estamos presos a estereótipos?
Thais Pessanha:Extremamente importante principalmente se começarmos a dar voz às pessoas com deficiência para que elas contem as suas próprias histórias, pois será uma das formas de quebrarmos estereótipos: a pessoa com deficiência não tem sempre que estar no lugar de quem tem uma história contada, mas sim demonstrar que pode ser protagonista dessa narrativa. Além disso, a literatura é um espaço extremamente importante para trabalharmos a questão do pertencimento, de que crianças e jovens com deficiência também se reconheçam nessas histórias (de vida e dos livros) e a partir daí vislumbrem novos caminhos e possibilidades para a sua própria vida.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Olhando para frente: o que ainda precisa quebrar estruturalmente e culturalmente para que inclusão deixe de ser exceção e vire regra?
Thais Pessanha: O preconceito, essa ideia de que a pessoa com deficiência tem que provar que é capaz de ser escritora, esportista ou líder numa grande empresa. A gente não precisa provar capacidade alguma. Se você tem dúvida se eu sou capaz ou não, a dúvida é sua. Não minha. Ser diferente é ser normal, afinal todo mundo é diferente, isso faz parte da diversidade da espécie humana. A anormalidade é um julgamento estético e social. Na verdade, a deficiência está é no espaço que não tem condições de receber toda e qualquer pessoa e não em nossos corpos diferentes por natureza.











