A Faixa Azul começou a ser implantada em algumas cidades brasileiras com o intuito de garantir mais segurança ao motociclista, além de organizar o trânsito.
Porém, pesquisas de comprovação de efetividade e até os próprios condutores têm divergido opiniões sobre a pista exclusiva.
Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET-SP), a severidade dos acidentes na capital paulista caiu, mas uma Pesquisa da USP, Universidade Federal do Ceará (UFC) e Instituto Cordial, aponta que os índices de fatalidade mais do que dobraram na cidade.
- Em meio a tudo isso, a Comissão de Viação e Transportes da Câmara dos Deputados acaba de aprovar o Projeto de Lei 1656/25, que prevê as pistas preferenciais em capitais brasileiras, no Distrito Federal e em rodovias federais e estaduais. Mesmo que a medida ainda não tenha se tornado lei, essa convergência acalenta ainda mais as preocupações sobre segurança no mês do Maio Amarelo – movimento internacional de conscientização para a redução de sinistros e mortes no trânsito.
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Faixa Azul dos resultados positivos
O estudo conduzido pelo CET-SP foi o 2º Relatório Consolidado da Faixa Azul, divulgado pela prefeitura de São Paulo no fim do mês de abril. Este declarou que a média da taxa de severidade dos sinistros com motos nos locais avaliados, na comparação entre o antes e o pós-implantação, reduziu em 26,6%.
Segundo o estudo, 233,3 km de Faixa Azul implantados em 36 vias (46 trechos) foram analisados entre janeiro de 2022 e dezembro de 2025. Pesos diferentes foram considerados para sinistros com feridos e mortes, e toda a pesquisa relacionou os dados analisados ao volume de veículos, ao período e à extensão do trecho. A conclusão foi de que a incidência e a gravidade dos sinistros fora da Faixa Azul é 9,5 vezes maior do que dentro da sinalização.
Os dados do CTE-SP ainda apontaram redução da velocidade média dos motociclistas após a implantação da Faixa Azul.
Pelos dados, a implantação da sinalização reduziu, em média, 5,5% da velocidade pontual das motocicletas, passando de 54 km/h para 51,1 km/h, além de queda de 4,3% na velocidade operacional, indicador usado para avaliar o padrão predominante de circulação nas vias. Nos pontos próximos a radares, o índice de desrespeito ao limite regulamentado passou de 44,2% para 27,6%.
O “outro lado” da faixa
Antes do estudo da CET-SP, em janeiro, uma pesquisa da USP, Universidade Federal do Ceará (UFC) e Instituto Cordial, com apoio técnico da Vital Strategies, apontou que a Faixa Azul para motociclistas não tornou o trânsito mais seguro, mas aumentou o índice de fatalidades em situações específicas.
Dentre os principais resultados dos cientistas, dois se destacaram:
- Sinistros fatais envolvendo motociclistas em cruzamentos aumentaram entre 100% e 120%;
- A velocidade média dos motociclistas subiu de 58,3 km/h para 72,2 km/h.
Nesta pesquisa, os cientistas compararam avenidas com Faixa Azul a outras semelhantes sem a sinalização. Entre os critérios analisados estavam número de pistas, volume de tráfego e características viárias. A Avenida 23 de Maio, por exemplo, foi comparada à Radial Leste.
Segundo os autores, os resultados mostraram que a Faixa Azul não apresentou melhora significativa nos indicadores de segurança em diversos cenários. Em alguns casos, os dados apontaram piora após a implantação da sinalização.
O estudo separou ocorrências registradas no meio das quadras e acidentes próximos aos cruzamentos, em um raio de até 10 metros. Foi justamente nesses locais que os números mais preocupantes apareceram.
Para os dados obtidos, os acidentes fatais envolvendo motociclistas mais do que dobram em cruzamentos localizados em vias com Faixa Azul, tendo aumento entre 100% e 120%.
Nesta avaliação, o aumento da velocidade entre um cruzamento e outro faz com que os motociclistas cheguem a esses pontos críticos em condições de maior risco.
A velocidade dos condutores foi medida por meio de imagens captadas por drones. Em avenidas com limite de 50 km/h e presença da Faixa Azul, 96% dos motociclistas trafegavam acima da velocidade permitida. Em vias sem a sinalização, o percentual também foi elevado, mas menor: 71%.
A pesquisa das universidades apontou ainda que 475 motociclistas morreram no trânsito da capital em 2025, número quase 15% maior do que o registrado em 2022, ano em que a Faixa Azul começou a ser implantada. Na comparação com 2024, houve uma leve queda de pouco mais de 1%. O menor número de mortes foi registrado em 2023, quando 402 motociclistas perderam a vida no trânsito paulistano.
Duas pesquisas e duas opiniões
As pesquisas se divergem no ponto da velocidade média e em suas conclusões. A motivação desta talvez seja o método de análise entre cada uma.
O CTE-SP considerou seus resultados comparando dados das vias que receberam a Faixa Azul de motociclista com as mesmas, quando ainda não contavam com a pista. Já a USP verificou os novos trajetos em comparação a outras avenidas similares que não contêm a pista exclusiva.
Em nota, a CET-SP ainda afirmou que o “relatório também responde a uma das principais críticas ao projeto: a hipótese de que a Faixa Azul estimularia o aumento da velocidade das motos. Os dados da CET indicam o contrário.”
Os pesquisadores das universidades afirmam no documento que “avaliar o impacto de uma intervenção de segurança viária exige mais do que comparar números ‘antes e depois’ da sua implementação. Para estimar corretamente o efeito de uma medida, é necessário saber o que teria ocorrido se a intervenção não tivesse sido aplicada. Essa previsão, o chamado contrafactual, é a base de qualquer avaliação de impacto. Quanto mais robusta for a metodologia empregada para estimar esse contrafactual, mais confiáveis serão as conclusões sobre o impacto da medida.”
- Certamente, essa diferença no método de pesquisa impacta significativamente nos resultados.
Tendência de nacionalização da Faixa Azul
A pesquisa de resultado negativo parece não ter convencido a Câmara dos Deputados, uma vez que o projeto de nacionalização das faixas preferenciais avança.
Como justificativa, o relator do projeto, deputado Flávio Nogueira, destacou que a medida traz segurança e eficiência para o trânsito.
“A faixa azul demarcada exclusivamente para motocicletas organiza o tráfego, aumenta a segurança e reduz acidentes”. Nogueira disse se basear em modelos como o da cidade de São Paulo.
O projeto da Faixa Azul Nacional segue para análise da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) em caráter conclusivo. Caso aprovada sem ressalvas, a proposta não precisará passar pelo plenário da Câmara, seguindo diretamente para o Senado antes de virar lei.










