Poucas modalidades cresceram tanto no ciclismo nos últimos anos quanto o Gravel. Nascido quase de forma espontânea nos Estados Unidos, misturando a velocidade
das bicicletas de estrada com a liberdade das estradas de terra, o esporte rapidamente deixou de ser uma tendência para se tornar uma das grandes apostas da indústria e das entidades esportivas internacionais.
No primeiro domingo de julho (dia 5), Rio Acima (MG) recebeu o primeiro Campeonato Brasileiro de Gravel, organizado pela Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) em parceria com a Avelar Sports. A prova entrou definitivamente para a história ao coroar os primeiros campeões nacionais da modalidade: Henrique Avancini, na Elite masculina, e Flávia Oliveira, na Elite feminina.
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Mais do que definir vencedores, o evento representa a consolidação do Gravel dentro do calendário esportivo brasileiro e aproxima o país de uma modalidade que cresce rapidamente em diferentes partes do mundo.
Muito além de uma nova categoria
Para quem ainda não conhece o Gravel, a modalidade pode parecer apenas uma mistura entre mountain bike e ciclismo de estrada. Mas ela possui características próprias.
As bicicletas Gravel lembram visualmente uma road bike, porém contam com pneus mais largos, geometria mais confortável e capacidade para enfrentar diferentes tipos de terreno. As provas normalmente combinam trechos de asfalto, estradas de terra, cascalho e caminhos rurais, exigindo resistência, técnica e capacidade de adaptação.
Essa versatilidade talvez explique seu crescimento.
Ao contrário de modalidades extremamente específicas, o Gravel conversa com diferentes perfis de ciclistas. Atrai quem vem do mountain bike, quem pratica ciclismo de estrada e também muitos iniciantes que procuram uma bicicleta capaz de percorrer diferentes superfícies sem abrir mão da eficiência. Nos últimos anos, esse crescimento fez a modalidade deixar de ser apenas um segmento do mercado para ganhar reconhecimento esportivo.
A União Ciclística Internacional (UCI) criou, em 2022, o Campeonato Mundial de Gravel, além de um circuito classificatório internacional, a UCI Gravel World Series, disputado em diversos países. O Campeonato Brasileiro realizado agora acompanha exatamente esse movimento internacional.
Um percurso que representa a essência do Gravel
A cidade mineira de Rio Acima foi escolhida para receber a primeira edição do Brasileiro não por acaso.
Localizada em uma região conhecida pelas estradas rurais e montanhas de Minas Gerais, ela oferece o tipo de terreno considerado ideal para a modalidade.
O percurso da Elite teve aproximadamente 95 quilômetros, reunindo longos trechos de terra, cascalho, estradas vicinais e setores pavimentados, além de um acumulado próximo de 3.000 metros de altimetria, tornando a prova bastante exigente fisicamente.
Esse tipo de percurso sintetiza exatamente a filosofia do Gravel: percorrer grandes distâncias por caminhos pouco explorados, privilegiando paisagens naturais e terrenos variados.
Henrique Avancini amplia um currículo histórico
Entre os homens, Henrique Avancini confirmou o favoritismo. O ciclista completou o percurso em 3h36min40s, conquistando o primeiro título brasileiro de Gravel da história. Sherman Trezza terminou na segunda colocação, enquanto André Gohr completou o pódio.
A vitória chega em um momento especial da carreira de Avancini. Depois de construir a trajetória mais vitoriosa da história do mountain bike brasileiro, com títulos mundiais, vitórias em etapas da Copa do Mundo e liderança do ranking internacional da UCI, o atleta vive uma fase de transição para as competições de estrada e Gravel. Nos últimos meses, seus resultados mostram que essa mudança acontece de forma bastante consistente.
Além de vencer a etapa brasileira da UCI Gravel World Series, resultado que garantiu classificação para o Campeonato Mundial da modalidade na Austrália, Avancini conquistou recentemente o Campeonato Brasileiro de Contrarrelógio e venceu o tradicional Tour of the Gila, nos Estados Unidos.
O título conquistado em Rio Acima amplia ainda mais um currículo que continua crescendo mesmo após sua despedida do mountain bike profissional.
Flávia Oliveira também entra para a história
Na Elite feminina, a primeira campeã brasileira de Gravel é outro nome bastante conhecido do ciclismo nacional. Flávia Oliveira completou o percurso em 4h34min18s, superando Isabella Lacerda e Ana Laura Moraes, que ficaram com a prata e o bronze, respectivamente. Flávia possui uma das carreiras mais consistentes da história do ciclismo feminino brasileiro.
Representou o Brasil em Jogos Olímpicos, conquistou o Campeonato Brasileiro de Estrada em 2018 e acumulou resultados importantes em competições internacionais, especialmente no calendário norte-americano.
Sua vitória também simboliza o encontro entre diferentes disciplinas do ciclismo, já que suas principais adversárias vieram do mountain bike. Essa integração entre atletas de modalidades distintas talvez seja uma das principais características do Gravel atualmente.
Uma modalidade que aproxima diferentes ciclistas
Ao observar o pódio da competição, fica evidente uma característica importante. Enquanto Avancini construiu sua carreira no mountain bike, Flávia tornou-se referência no ciclismo de estrada. Isabella Lacerda também possui forte trajetória no MTB, enquanto outros atletas participantes vieram de diferentes modalidades.
Essa mistura dificilmente aconteceria em um Campeonato Brasileiro tradicional de estrada ou de mountain bike. O Gravel cria justamente esse ambiente híbrido: por utilizar terrenos variados, a modalidade aproxima perfis distintos de ciclistas e amplia o acesso ao esporte.
Isso explica por que tantos eventos ao redor do mundo registram crescimento acelerado no número de inscritos.
Um marco para o ciclismo brasileiro
Para a Confederação Brasileira de Ciclismo, a criação do Campeonato Brasileiro representa muito mais do que incluir uma nova prova no calendário.
Segundo o secretário-geral da entidade, José Luiz Vasconcelos, trata-se de um passo importante para acompanhar a expansão internacional da modalidade e fortalecer seu desenvolvimento no país.
“Este é um momento histórico para o ciclismo brasileiro. O Gravel vive uma grande expansão internacional e o Brasil passa a integrar esse movimento com um campeonato nacional estruturado e alinhado ao cenário mundial. É um pontapé inicial muito importante, que certamente abrirá caminho para o crescimento da modalidade, formação de novos atletas e fortalecimento do calendário nacional”, afirmou o dirigente em comunicado divulgado pela CBC.
A fala resume bem o significado da competição.
Assim como aconteceu anteriormente com modalidades como BMX Racing e Pump Track, a oficialização de um campeonato nacional tende a estimular novos eventos, ampliar a formação de atletas e fortalecer a cadeia do ciclismo.
O futuro do Gravel no Brasil
Ainda é cedo para prever qual será o tamanho da modalidade no país. Mas alguns sinais apontam para um crescimento consistente.
O mercado brasileiro passou a oferecer mais modelos específicos de bicicletas Gravel nos últimos anos. Eventos dedicados exclusivamente à modalidade começam a aparecer em diferentes estados. E atletas tradicionais do mountain bike e da estrada têm incluído esse tipo de prova em seus calendários.
Ao mesmo tempo, o Gravel dialoga com tendências que já observamos em outros países.
O interesse crescente pelo cicloturismo, pelas viagens de bicicleta, pelas experiências em meio à natureza e por modalidades menos competitivas cria um ambiente favorável para sua expansão.
Nesse contexto, o primeiro Campeonato Brasileiro de Gravel não representa apenas o encerramento de uma prova.
Ele pode ser lembrado, no futuro, como o momento em que o Gravel deixou definitivamente de ser uma tendência para se tornar parte da história do ciclismo brasileiro.
Fontes consultadas
Esta reportagem foi elaborada com base nas informações oficiais divulgadas pela Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) sobre o 1º Campeonato Brasileiro de Gravel. Também foram utilizados os resultados oficiais da competição disponibilizados pela organização do evento.











