A preferência do consumidor por rodas de grande diâmetro e com pneus de perfil baixo — mais suscetíveis a danos em buracos — tem caminhado lado a lado com outra
tendência: lançamentos que chegam sem estepe ou apenas com a versão temporária dele, aquele pneu mais fino e de uso restrito. É contra essa segunda prática que mira um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados.
O PL 1396/2026, de autoria do deputado federal Pastor Gil (PL-MA), quer proibir a venda de veículos novos equipados com estepe temporário ou de uso limitado. Pela proposta, todo carro deveria sair de fábrica com roda e pneu sobressalentes de mesmas dimensões, capacidade de carga e índice de velocidade dos que já equipam o veículo.
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O projeto de lei se aplica a todas as categorias, de automóveis de passeio a SUVs, picapes, comerciais leves e utilitários. Na justificativa, o parlamentar sustenta que o estepe temporário representa risco à segurança porque, por ser mais estreito e ter menor área de contato com o solo, altera o comportamento dinâmico do carro em frenagens e curvas, além de impor limite de velocidade — em geral, 80 km/h.
Segundo ele, a peça “não mantém as características originais de estabilidade, frenagem, tração e distribuição de carga do veículo”, e a ausência de um estepe integral configuraria possível vício do produto. O deputado ainda afirma que a solução foi adotada pela indústria por economia.
Se aprovado, o projeto prevê punições a montadoras, importadoras e revendas que descumprirem a regra: multa proporcional ao valor de mercado do veículo e a obrigação de substituir gratuitamente o estepe fino por um modelo integral. Por ora, o PL 1396/2026 está em fase inicial e tramita nas comissões temáticas da Câmara, onde pode sofrer alterações antes de eventual votação — só então seguiria para o Senado.
A reportagem procurou o gabinete do deputado Pastor Gil para questionar se o texto levou em conta o diâmetro das rodas dos carros atuais e os modelos que utilizam medidas diferentes entre os eixos dianteiro e traseiro. Até o fechamento desta reportagem, não havia obtido retorno.
Estepe temporário: por que ele se popularizou?
O estepe de uso temporário não é novidade. Ele já aparecia nos carros norte-americanos dos anos 1960, quando a roda sobressalente de tamanho normal era oferecido como item opcional. No Brasil, o formato começou a se espalhar por volta de 2012, em modelos como Honda Civic, Ford New Fiesta e Chevrolet Cobalt, e hoje é adotado por boa parte da indústria.
Atualmente, a legislação brasileira não exige que o estepe seja integral: pede-se apenas que o veículo tenha alguma solução para seguir viagem em caso de pneu danificado. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) lista entre os equipamentos obrigatórios o pneu e o aro sobressalentes, o macaco e a chave de roda. Já a Resolução Contran nº 913/2022 regula justamente o conjunto roda e pneu sobressalente de uso temporário e os sistemas alternativos.
O texto determina, entre outros pontos, que o diâmetro externo do estepe temporário seja igual ao das rodas de rodagem, que o carro disponha de espaço para acomodar a roda substituída e que a montadora informe a velocidade máxima segura para o uso da peça. A mesma resolução dispensa o estepe nos veículos equipados com pneus capazes de rodar “sem ar” (run-flat) ou com sistemas alternativos, como o kit de reparo com selante e compressor.
Entre os modelos vendidos no país, o estepe temporário aparece em linhas populares da Chevrolet, como Onix e Tracker, na família Jeep — Renegade, Compass e Commander — e em SUVs de marcas chinesas, como o GWM Haval H6.
Uma vez que os carros modernos — sobretudo os SUVs — usam conjunto roda/pneu de grande diâmetro e mais largo, um estepe integral também seria volumoso e pesado. Daí a preferência dos fabricantes pelo pneu temporário. A roda de 19 polegadas usada, por exemplo em algumas versões do Jeep Compass pesa 14,7 kg, enquanto o pneu correspondente pesa 12 kg. Ou seja, o conjunto completo beira os 27 kg — um esforço considerável para o motorista na hora da troca.
O ganho de espaço no porta-malas também é considerável, e o caso do Jeep Renegade ilustra bem essa lógica: ao trocar o estepe integral pelo temporário, o SUV ampliou o porta-malas de 260 para 320 litros. Nas versões com tração integral, que mantêm o sobressalente idêntico aos demais pneus, a capacidade do bagageiro é menor. A indústria aponta ainda um efeito colateral positivo: por não servir para o uso diário em outro carro, o estepe fino é menos visado por furtos do que o integral.
Na década de 2000, fabricantes europeus apostaram nos pneus run-flat, de lateral reforçada, capazes de rodar por alguns quilômetros mesmo furados. Nesses carros, o estepe dá lugar a um kit com selante e compressor. A solução, porém, é eficaz apenas contra furos na banda de rodagem — segue vulnerável a impactos maiores e rasgos — e deixa a rodagem mais áspera por causa do flanco menos flexível. Por isso, não emplacou no Brasil.
Cuidados necessários com o estepe temporário
Segundo Roberto Falkenstein, consultor de tecnologias inovativas da Pirelli para a América Latina, o estepe temporário é uma solução para que o motorista rode por alguns quilômetros até conseguir reparar o pneu danificado.
Ele alerta que a peça altera o comportamento dinâmico do carro por ser mais estreita, ter composto diferente e, muitas vezes, diâmetro menor, o que prejudica o desempenho em curvas e frenagens.
Além disso, pode afetar o funcionamento ideal de sistemas eletrônicos de assistência à condução, como ABS, controle de estabilidade e controle de tração, especialmente se utilizado por longas distâncias ou em condições severas. Por isso, seu uso deve ser encarado apenas como uma solução temporária, até que o pneu original seja reparado ou substituído.
É por causa desses fatores que existe a limitação de 80 km/h. Falkenstein reforça que ela decorre do propósito da peça, criada apenas para o uso emergencial. O especialista explica:
Em velocidades mais elevadas, aumentam significativamente os esforços mecânicos, a geração de calor e as diferenças de comportamento em relação aos demais pneus, podendo comprometer a estabilidade, a capacidade de frenagem e a dirigibilidade.
Os fabricantes recomendam desligar o controle de estabilidade ao rodar com esse tipo de estepe, pois as medidas diferentes podem interferir na leitura dos sensores que regem o sistema.
O jornalista britânico Chris Harris demonstrou na prática como o estepe temporário reduz a aderência de um carro: ele instalou quatro dessas peças em um Mercedes-Benz C63 AMG, que passou a derrapar com muito mais facilidade.













