O ano era 1998, às vésperas da virada do século. O mercado brasileiro carecia de carros diferentes, daqueles modelos de nicho que permitiam ao proprietário
se destacar em meio à multidão de automóveis parecidos. Foi nesse contexto que a General Motors decidiu trazer de Sevilha, na Espanha, o Chevrolet Tigra, um pequeno cupê esportivo que compartilhava a mesma mecânica do Corsa GSi.
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Sob o capô estava um valente motor 1.6 de quatro cilindros, duplo comando de válvulas e 16 válvulas, capaz de desenvolver 100 cv de potência. Era um número modesto para um conjunto tecnicamente avançado, mas suficiente para proporcionar um comportamento dinâmico interessante. O Tigra freava bem e contornava curvas com agilidade graças ao seu baixo centro de gravidade.
Mas, se o carrinho era tão bom assim, por que deixou de ser importado em menos de um ano?
A resposta está justamente na sua curta passagem pelo mercado brasileiro. Em 1999, o Tigra vendeu muito pouco e rapidamente ganhou fama de mico. Ao todo, cerca de 2.600 unidades foram comercializadas pela ampla rede de concessionárias Chevrolet.
O principal problema era que o carro entregava menos do que seu visual prometia. O interior acomodava com relativo conforto apenas motorista e passageiro. O banco traseiro, se é que podia ser chamado assim, servia muito mal até mesmo para duas crianças.
Tigra custava como Vectra e acelerava como Corsa
O desempenho também não ajudava. Apesar de atingir aproximadamente 190 km/h graças à boa aerodinâmica e à reduzida área frontal, o Tigra precisava de pouco mais de 10 segundos para acelerar de 0 a 100 km/h. Não era exatamente o que se esperava de um carro com aparência esportiva.
Além disso, o modelo era caro para o que oferecia. Custava cerca de US$ 21 mil. Como a cotação da moeda americana girava em torno de R$ 1,15 por dólar, o preço final ultrapassava os R$ 24 mil em 1998. Era muito dinheiro para um automóvel pequeno e praticamente destinado a apenas duas pessoas.
Para efeito de comparação, esse valor permitia comprar um Chevrolet Vectra GLS completo, equipado com motor 2.0, espaço para quatro passageiros com conforto, porta-malas generoso e desempenho superior ao do próprio Tigra.
Na prática, só comprava um Tigra quem realmente era apaixonado pelo carro. Sob o ponto de vista racional, a escolha fazia pouco sentido.
Outro problema era o custo de manutenção. Embora utilizasse a plataforma do Corsa, um modelo popular e relativamente barato, diversas peças do Tigra eram importadas. Componentes de freios, direção e acabamento tinham preços elevados e nem sempre eram encontrados com facilidade.
O motor 1.6 16V também não era dos mais amigáveis para os mecânicos. A troca da correia dentada e o sincronismo dos dois comandos de válvulas exigiam mão de obra especializada, aumentando o custo dos serviços.
Com o passar do tempo, as notícias negativas começaram a se espalhar. A rejeição ao modelo cresceu e isso provocou outro problema: a forte desvalorização no mercado de usados.
Pouca gente queria assumir os custos e as dificuldades associadas ao pequeno cupê. Como era produzido na Espanha, todas as peças de carroceria precisavam ser importadas da Europa. Consequentemente, os reparos após colisões eram caros, levando as seguradoras a cobrarem valores elevados pelas apólices. Era um problema atrás do outro.
Flutução cambial matou o Tigra
Mas o golpe definitivo veio em 1999. No início daquele ano, o governo brasileiro adotou o regime de câmbio flutuante. Em poucos meses, a cotação do dólar saltou de aproximadamente R$ 1,20 para cerca de R$ 1,80.
Se o Tigra já era caro antes, tornou-se praticamente inviável depois da disparada da moeda americana. Diante desse cenário, a General Motors anunciou, em fevereiro de 1999, o encerramento das importações do modelo para o Brasil.
Os cerca de 2.600 compradores ficaram com um verdadeiro mico nas mãos. O valor de mercado despencou rapidamente e os custos de manutenção continuaram subindo. Peças mecânicas e, principalmente, componentes de funilaria tornaram-se cada vez mais caros e difíceis de encontrar.
Na prática, o Chevrolet Tigra permaneceu menos de um ano no mercado brasileiro, um período extremamente curto para um automóvel que dependia de importação e assistência especializada.
Hoje, a história é bem diferente. O modelo tornou-se raro e os poucos exemplares preservados estão, em sua maioria, nas mãos de colecionadores e entusiastas. Um carro que nasceu para ser exclusivo, fracassou comercialmente e acabou se transformando em uma curiosa peça da história da indústria automobilística brasileira.













